............Se
é que Cabral gritou alguma coisa quando avistou os contornos do Monte
Pascoal, certamente não foi "terra ã vishta", assim com o "a" abafado
e o "s" chiado que associamos ao sotaque português. No século XVI, nossos
primos lusos não engoliam vogais nem chiavam nas consoantes - essas
modas surgiram depois do século XVII, na Península Ibérica. Cabral teria
berrado um "a" bem pronunciado e dito "vista" com o "s" sibilante igual
ao dos paulistas de hoje. O hábito de engolir vogais, da maneira como
o fazem os portugueses de hoje, consolidou-se na língua aos poucos,
naturalmente. Na verdade, nós, brasileiros, mantivemos os sons que viraram
arcaísmos empoeirados para os portugueses.
............Só
que, ao mesmo tempo, acrescentamos à língua mãe nossas próprias inovações.
Demos a ela um ritmo roubado dos índios, introduzimos subversões à gramática
herdadas dos escravos negros e temperamos com os sotaques de milhões
de imigrantes europeus e asiáticos. Deu algo esquisito: um arcaísmo
moderno.
............O
português brasileiro levou meio milênio se desenvolvendo longe de Portugal
até ficar nitidamente diferente. Mas ainda é quase desconhecido. Até
os anos 90, os lingüistas pouco sabiam sobre a história da língua, sobre
nosso jeito de falar e as diferenças regionais dentro do Brasil. Agora,
três projetos de pesquisa estão mudando isso:
............1)
Gramática do português falado: será publicada em 2001, depois de ocupar
32 lingüistas de doze universidades durante dez anos. " Ao contrário
do que se acredita, as pessoas falam com muito mais riqueza do que escrevem",
diz à SUPER o professor Ataliba de Castilho, do departamento de Letras
da Universidade de São Paulo, que coordena o projeto.
............2)
A origem de cada estrutura gramatical: Ao estudar as particularidades
da língua falada, os pesquisadores reuniram informações sobre a origem
de cada estrutura gramatical. A partir desses dados, estão começando
a primeira pesquisa completa sobre a história do português no Brasil.
A intenção é identificar todas as influências que a língua sofreu deste
lado do Atlântico. Só que essas influências são diferentes em cada parte
do país. Daí a importância do terceiro projeto:
............3)
O Atlas Lingüístico. "Até 2005, vamos mapear todos os dialetos da nação",
prevê Suzana Cardoso, lingüista da Universidade Federal da Bahia e coordenadora
da pesquisa, que abrangerá 250 localidades entre o Rio Grande do Sul
e a Amazônia.
............Os
três projetos somados constituem, sem dúvida, o maior avanço para a
compreensão da nossa língua desde que Cabral aportou por aqui.
Caldeirão de povos
............Mas,
se há semelhanças entre a língua do Brasil de hoje e o português arcaico,
há também muito mais diferenças. Boa parte delas é devida ao tráfico
de escravos, que trouxe ao Brasil um número imenso de negros, que não
falavam português. " Já no século XVI, a maioria da população da Bahia
era africana", diz Rosa Virgínia Matos e Silva, lingüista da Universidade
Federal da Bahia. "Toda essa gente aprendeu a língua de ouvido, sem
escola", conta. Na ausência de educação formal, a mistura de idiomas
torna-se comum e traços de um impregnam o outro. "Assim, os negros deixaram
marcas definitivas", ressalta ela.
............Também
no século XVI, começaram a surgir diferenças regionais no português
do Brasil. Num pólo estavam as áreas costeiras, onde os índios foram
dizimados e os escravos africanos abundavam. No outro, o interior, onde
havia sociedades indígenas. À mistura dessas influências vieram se somar
as imigrações, que foram gerando diferentes sotaques. "Com certeza,
o Brasil hoje comporta diversos dialetos, desde os regionais até os
sociais, já que os ricos não falam como os pobres"" afirma Gilvan Müller
de Oliveira, da Universidade Federal de Santa Catarina.
............Mas
o grande momento de constituição de uma língua "brasileira" foi o século
XVIII, quando se explorou ouro em Minas Gerais. "Lá surgiu a primeira
célula do português brasileiro", diz Marlos de Barros Pessoa, da Universidade
Federal de Pernambuco. "A riqueza atraiu gente de toda parte - portugueses,
bandeirantes paulistas, escravos que saíam de moinhos de cana e nordestinos."
Ali, a língua começou a se uniformizar e a exportar traços comuns para
o Brasil inteiro pelas rotas comerciais que a exploração do ouro criou.
Falas
brasileiro ?
............
A lei da evolução, de Darwin, estabelece que duas populações de uma
espécie, se isoladas geograficamente, separam-se em duas espécies. A
regra vale para a Lingüística. "Está em gestação uma nova língua: o
brasileiro", afirma Ataliba de Castilho.
............As
diferenças entre o português e o brasileiro são maiores do que as existentes
entre o hindi, um idioma indiano, e o hurdu, falado no Paquistão, duas
línguas aceitas como distintas", diz Kanavillil Rajagopalan, especialista
em Política Lingüística da Unicamp.
............Algo
mais: o português é falado em vários países da África, incluindo
Angola e Moçambique, em Macau, na China, em Goa, na Índia e no Timor
Leste, recém-independente da Indonésia. O número de falantes beira os
200 milhões, 160 dos quais aqui no Brasil. É o sexto idioma mais falado
do mundo.
(
fonte: Super Interessante, abril 2000, p. 46)
Volta