PET Ciências Biológicas – UFV

Biologia em Foco

Viçosa, setembro de 2006 * Nº46

    Vila Gianetti, 30*(31) 3899-2295*www.ufv.br/petbio*petbio@ufv.br

Prof. Lino Neto; Prof. Lucio Campos; Amanda Miranda; Carla Oliveira; Étori Aguiar; Evelyze Pinheiro; Lucas Dornelas; Karine Freitas; Marcelo Vaz; Mário Moura;

Odair Campos; Paula São Thiago; Rômulo Areal; Swiany Lima; Tatiana Rigamonte; Vitor Fernandes.

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Em setembro do ano passado, fui em viagem ao Espírito Santo, na cidade de Vitória. Após dias de tempo nublado, a proposta de conhecer o sítio de um tio, em Domingos Martins, pequena cidade próxima, pareceu muito atraente.

Além de passarinhos, muito mato e seus agregados (coisas que biólogos tanto gostam de chamar por nomes incomuns), o que também mereceu atenção durante o trajeto foram as várias plantações de café. Como bons mi-

Fonte: www.pedruzzi.gigafoto.com.br - 08/04/2005

neiros que somos, tivemos a cautela de pedir informações sobre o “paradeiro” do tal sítio.

Pelas estradas, algumas pessoas. Todas de cabelo, pele e olhos claríssimos. Diferente? Também.

O mais difícil de entender, porém, eram as indicações que recebíamos. Embora as crianças tenham conversado conosco claramente, os mais velhos possuíam forte sotaque, alguns deles, reciprocamente, não entendendo patavinas (perdoem-me o terrível calão) do que falávamos. Em um lugar mais alto, em posição de destaque, uma Igreja Luterana.

Até o momento, não tinha o mais simples palpite que explicasse as observações citadas. Aposto que os biólogos de plantão pensaram em isolamento geográfico.

Pois bem, conversando com meu avô, já familiarizado com a região e com as pessoas de lá, soube que havia conhecido um pouco do povo Pomerano. E que a língua que usam entre si é o próprio pomerano, que, intrigantemente, não possui escrita oficial ou gramática normativa, tratando-se, oficialmente, de um dialeto. As crianças aprendem o português na escola e o pomerano em casa. Como não há uma gramática oficial, o dialeto sofre as modificações naturais sem que haja possibilidade de acompanhamento linguístico. A religião é a luterana.

Aparentam ser tímidos e ressabiados. Bons mineiros? Não! Descendentes de europeus, e generosos aos que conquistam a confiança. É impossível não perceber o estilo diferente da vida pomerana. Durante todo o dia, vêem-se pelas lavouras de café as famílias trabalhando. Há um mercado na porção central e, ao lado, uma casa onde fica o telefone, usado por todos. Na porta lia-se: “Fechado durante o feriado, em caso de emergência chamar...”.

Obtive mais algumas informações e decidi pesquisar. A origem dos pomeranos é marcada pela busca de espaço para sobrevivência. Viviam em terras do sul do Mar Báltico, cobiçadas por alemães, poloneses, dinamarqueses e suecos. No século 12, enfrentaram mais de 20 guerras. De 1128 a 1400, viraram dependentes comercial e culturalmente dos alemães, fugindo dos temidos poloneses. Mais tarde, já no século 19, suas terras serviram de passagem para as tropas de Napoleão. No Congresso de Viena surgia a Província Prussiana da Pomerânia.

A vinda dos primeiros pomeranos foi promovida por Thereza Cristina Maria, mulher de D. Pedro II, por volta de 1870. Eles procuravam as grandes extensões de terra, estradas, armazéns e postos médicos das promessas recebidas, mas que não foram cedidos – ô política antiga! Restaram-lhes as terras dos pés das montanhas capixabas.

Nos anos 1800 a 1900, mais de 330 mil pomeranos migraram para os Estados Unidos, mas lá não se isolaram. Para o Brasil, vieram 30 mil, que se mantiveram em comunidades fechadas. Fugiam de novas ameaças, como depois da 1ª Guerra, quando os que ficaram permaneceram sob o domínio da Polônia, ou da 2ª Guerra, quando foram expulsos de suas terras por soviéticos e poloneses. No final, 1,8 milhão de pomeranos orientais foram obrigados a refugiar-se na parte ocidental. E esta acabou nas mãos da Alemanha comunista. A Pomerânia desaparecia do mapa.

Aos pomeranos que vieram para o Brasil, o período entre guerras foi o pior. Em 1930, no governo Getúlio Vargas, foram proibidos de falar pomerano e eram caçados pelos camisas-verdes. "Invadiam as casas, reviravam tudo em busca de livros em alemão, queimavam Bíblias", lembra Geraldino Romais. As famílias, desesperadas, corriam para o mato. Pastores luteranos, que rezavam em alemão, foram obrigados a pregar só em português. Estranho e inoportuno ufanismo.

Até os anos 70, nem sequer o rádio era utilizado por eles. Até a quarta geração de descendentes, pouco se integraram ao Brasil, preservando as tradições. Coisas simples, como as superstições, o respeito aos mais velhos, a religiosidade luterana, o patriarcalismo e, sobretudo, a dedicação à terra.

Entretanto, nos últimos anos, muito desse cenário tem mudado. "O pomerano vai estar logo ameaçado", explica o lingüista e antropólogo Ismael Tressmann. "Se não incentivarem pais e escolas a voltarem a ensinar o idioma, ele pode ser declarado extinto. O latim é um exemplo". Mas há boas expectativas: os planos de um dicionário pomerano-português estão saindo do papel. Parece um bom começo.

Alguns dos costumes:

- as crianças selavam seus destinos no primeiro aniversário ao escolher entre um pão (não faltaria comida), uma moeda (seria rico) e a Bíblia (viraria religioso).

- as mulheres casavam-se de preto com uma faixa verde na cintura, como sinal de protesto, já que no período do feudalismo tinham que primeiro dormir com o senhor feudal antes de se casar. A festa do casamento durava pelo menos três dias e os músicos tocavam a concertina, um instrumento da família do acordeon fabricado só na Alemanha. A noiva chegava de charrete e havia o “baile de quebra louças” (pelo nome, imaginem a sonoridade do evento).

Pelo tanto que venceram, falar do passado é motivo de orgulho para os pomeranos mais idosos. E é justamente esse espírito de perseverança que poderá capacitá-los a superar um outro problema: por meio de um Decreto de Lei em 2002, o Governo Federal, na administração do então presidente Fernando Henrique Cardoso, criou o Parque Nacional dos Pontões Capixabas, na região de Pancas, habitada por mais de 500 famílias pomeranas, até o momento responsáveis pela preservação da natureza no local. Se não houver mudança nos planos, as famílias deverão ser desapropriadas.

Surge a questão: preservar a riqueza natural ou a integridade de uma minoria? Comprar um apartamento razoável pra cada família não é nem de longe uma solução plausível. Uma das características mais marcantes dos pomeranos é o contato com a terra, com a natureza. Eles cuidam e dela tiram seu sustento. Essa foi a realidade que vi entremeando as extensas plantações de café que citei.

É importantíssimo proteger Pancas, com tudo o que faz parte dela.

Talvez não apenas com os índios tenhamos uma dívida histórica.

Nas serras do Espírito Santo, vivem centenas de famílias de descendentes de um país que já não mais existe – a Pomerânia. Talvez não exista mais na Europa, mas esperamos que ele continue a existir aqui em território brasileiro. E que o povo pomerano vença mais essa luta – pela identidade.

 

 

 

 Tatiana Alves Rigamonte

 

 

Referências:

 

- O Estado de S. Paulo, 13 de fevereiro de 2005: “No Brasil, pomeranos buscam uma cultura que se perde”.

- Entrevista de Jeanne Bilich para a revista Seculodiario.com www.seculodiario.com.br

- Notas de uma viagem ao paraíso pomerano, por Fernando Gabeira, Ambientalista e Deputado Federal. Revista de Ecologia do Século 21 www.eco21.com.br