PET Ciências Biológicas – UFV

Biologia em Foco

Viçosa, julhode 2006 * Nº45

    Vila Gianetti, 30*(31) 3899-2295*www.ufv.br/petbio*petbio@ufv.br

Prof. Lucio Campos; Amanda Miranda; Carla Oliveira; Étori Aguiar; Evelyze Pinheiro; Lucas Dornelas; Karine Freitas; Marcelo Vaz; Mário Moura;

Odair Campos; Paula São Thiago; Rômulo Areal; Swiany Lima; Tatiana Rigamonte; Vitor Fernandes.

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Por que trabalhar em grupo? Convém dizer que na grande maioria dos organismos multicelulares há uma divisão de trabalho: as células somáticas são responsáveis pela manutenção das funções fisiológicas do organismo e as células germinativas são responsáveis pela transmissão dos genes que o compõe. Na verdade, este conceito de responsabilidade é um pouco impróprio. Convém mesmo dizer que certas células são programadas para manter o organismo e certas delas são programadas para fazer outro

Fonte: www.btinternet.com

organismo.

Em alguns casos, qualquer célula pode dar origem a outro organismo, mas nos casos em que apenas algumas o fazem o processo de formação do mesmo requer uma dicotomia, em algum ponto. De que maneira então se determina quais células serão germinativas ou somáticas? Na maioria dos casos, essa determinação é derivada de uma distribuição desigual do conteúdo citoplasmático entre as células filhas nas primeiras divisões do zigoto.

Mas voltando à pergunta inicial, por que trabalhar em grupo? Bom, de um ponto de vista geral, como o povo mesmo diz, a união faz a força. Células isoladas tenderiam a ser mais vulneráveis às variações ambientais e à predação. Mas com a divisão em células somáticas e germinativas um paradigma se estabelece: algum dia as células somáticas morrerão, mas as germinativas deixarão descendentes. Qual a vantagem para as células somáticas? Se todas elas vivem e trabalham como escravas para que as células germinativas possam formar os organismos da próxima geração algo de bom elas deveriam ganhar com isso, ou não? Vamos falar então de vantagem como um tema geral. O que é vantagem, de um ponto de vista evolutivo? Uma série de fatores, mas estes devem culminar em um número maior de cópias adiante no tempo. Por quê? Como diria aquele bom mineiro: “uai, purque quanto mais pão de queijo ocê tem, mais pão de queijo sobra se ocê encontrá com um bando de amigo esfomiado, se ocê perdê um cadim, se ocê dexá caí um ou dois, e tal!”. Quanto mais cópias, maior a probabilidade de que algumas dessas cópias sobrevivam aos inúmeros fatores que poderiam eliminá-las. Pronto, esta é a palavra, cópias! As células somáticas são cópias das células germinativas, ou vice versa, e assim, com o sucesso das últimas, mais cópias das primeiras poderão estar por aí amanhã. E o quê isso tem a ver com trabalhar em grupo? Três opções: letra a) Nada; letra b) Tudo; letra c) Nenhuma das respostas anteriores. Se você respondeu letra a, vou tentar te convencer. Se foi b, parabéns, você está no caminho certo. Se respondeu c, por favor, leia o texto novamente e forme uma opinião.

Cópias. Cópias de quê? Um linfócito não é, definitivamente, a cópia de um neurônio. E de igual forma, com certeza uma célula muscular não é uma cópia de um óvulo. Mas, em um mesmo organismo, todas essas células têm cópias dos mesmos genes. Os genes são, em primeira análise, uma seqüência de nucleotídeos alinhada de forma tal para fazer alguma coisa, como servir de molde para a síntese de um RNA, que irá direcionar a síntese de uma proteína ou um processo regulatório. Em uma análise um pouco mais precisa, os genes são também informação. Se os nucleotídeos que compõe o gene da hemoglobina fossem dispostos aleatoriamente em seqüência e recolocados no organismo este gene perderia sua atividade, porque é a ordem desses nucleotídeos que faz com que o gene sirva de mensagem para a síntese dessa proteína. Este componente “ordem”, ou informação, é o que as cópias de um gene compartilham.

As várias cópias de um gene são de grande importância para a existência deste. De forma direta, como no caso do pão de queijo do mineiro – quanto mais cópias maior a probabilidade de um gene persistir; ou de forma indireta, com a cooperação entre as cópias. Ah, finalmente, as quatro palavras que respondem à pergunta do primeiro parágrafo. Por que trabalhar em grupo? Cooperação entre as cópias. Cópias de quê? Dos genes. Quais genes? Os que compõem um organismo. Como? Se você tivesse que pagar as contas de sua casa, assistir a aulas de manhã e à tarde, fazer um experimento no laboratório, ir à aula de inglês, pegar um histórico no registro escolar, pagar um boleto no banco, e ainda quisesse assistir a um jogo da copa do mundo, tudo seria muito simples se você tivesse clones, que logicamente fariam tudo enquanto você assiste ao jogo. É justamente o que os genes dos organismos multicelulares fazem: as cópias somáticas fazem o organismo caçar, comer, beber, fugir, se esconder, voar, nadar, e finalmente encontrar parceiros para se acasalar e deixar as cópias germinativas, que só assistiam ao jogo, passar os genes adiante.

Às vezes os genes constroem estruturas até mais complexas. Estendendo o conceito das cópias a uma colméia, por exemplo, onde estão as cópias dos genes que passarão para as próximas gerações? Na rainha e no zangão. E quem protege e alimenta a colméia? As operárias. Que são feitas de cópias dos genes que estão na rainha e no zangão. Pensando no conceito do gene como informação, ele está ao mesmo tempo nas operárias, na rainha e no zangão, mas, para uma maior eficiência, protege e faz emergir apenas suas cópias que estão nos parentais. Isto nos faz refletir sobre o conceito de indivíduo. Quais são indivíduos neste caso? As operárias, a rainha e o zangão, ou a colméia se comporta como um único indivíduo, controlado pelos genes que a compõem?

Por isso as células somáticas não trabalham para as germinativas: em última análise, os dois tipos são a mesma célula. Quem monta esta situação são seus genes, que para dar conta do recado constroem várias cópias para fazer o trabalho como um todo e ainda assim manter viva a informação que os compõe. Nem sempre o fazem com esta divisão entre somáticas e germinativas, como nos casos em que qualquer célula do organismo pode dar origem a um novo, mas o princípio básico é a cooperação entre as cópias criadas.

Multicelularidade é isso: divisão de trabalho entre iguais. Como um bando de mineiros em plena copa do mundo: uns fazem o café, outros assam o pão de queijo, alguns arrumam a antena e no final todo mundo assiste ao jogo do Brasil bebendo “cafezim” e comendo pão de queijo! “Bão dimais hein sô!!!”.

 



 

 Rômulo Braga Areal

 

 

Referências:

 

- DAWKINS, R. O gene egoísta. 1941. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia; São Paulo, EDUSP. 1979.

 

- GILBERT, S. F. Developmental Biology. 4th ed. Sinauer Associates, Inc. Massachusetts, 1994.