A moça bonita, de olhos castanhos, quase quinze anos
mais jovem que eu, e que foi minha aluna – agora é minha chefe.
Manda chamar-me na sala da chefia. Pede-me para ir ao jantar que o Departamento
oferece aos convidados de fora que vieram, a convite, fazer palestras no
simpósio. Se eu pudesse, negaria. Primeiro, porque não
vai dar para caminhar de madrugada como faço todos os dias. Segundo,
porque sei do tédio que vou ter que aguentar. Mas como dizer não
à colega mais jovem, que sempre me tratou com deferência e
a quem irrestritamente apoio? Ordens são ordens, seja o que Deus
quiser...
Sentam-se seis ou sete PhDs à mesa, restaurante badalado,
garçons de gravata borboleta, música suave de fundo, cardápio
encapado com couro legítimo. Pede-se cerveja. Até me deu
vontade de pedir uma pinga ou um uísque mas deixa prá lá.
Quem sabe meu calvário termina mais cedo e até vai dar para
fazer minha caminhada, ao raiar da luz primeira?
O assunto é fitopatologia, como sempre. Eu, que adoro
minha profissão, que assino quarenta e cinco dias mas tiro, no máximo,
uma semana de férias por ano, eu que trabalho sábado, domingo,
feriado, Natal e Ano Novo, dia santo e Carnaval, começo a ficar
incomodado. Polidamente, tento falar de outras coisas. Embarcam na minha
canoa por trinta segundos mas voltam para o mesmo assunto inicial.
Exerço meu senso de urbanidade, tento de novo falar sobre outra
coisa. Conversam um pouquinho e voltam a falar de pesquisa. De projetos,
de aulas, de Pronex, de resultados, de repetições, de teses,
de coisas assim. Desisto. Olho desolado o “maitre”, vontade, de novo,
de pedir uma pinga. Não sem razão, Paulo Francis dizia que
gostava de beber porque, após o terceiro ou quarto uísque,
gente que costuma dar azia em fábrica de Sonrisal começa
ficar interessante.... Desisto de vez da pinga. Passeiam em meus pobres
ouvidos cabeludos, cabeludos e mal depilados termos técnicos
que me soam, naquela hora e lugar, muito cabeludos, como cabeludos
palavrões gritados perto do ouvido da mulher que se ama...
Às vezes, tomando uma cerveja sozinho, no meu sítio
– noite de lua, companheira e filhos já dormindo, meus cães
deitados na grama espiando o dono na varanda, fico pensando. Nossos cientistas
estão virando máquinas! Máquinas de publicar, máquinas
de fazer projetos, máquinas de orientar, máquinas de fazer
palestras, máquinas de separar fios de DNA ...
Ninguém lê um livro. Ninguém assiste um
filme bom, no máximo um Titanic da vida ou coisa que o valha. Ninguém
vai a um teatro. Ninguém pára para ouvir uma boa música
clássica. Ninguém tira uma tarde para ver os impressionistas
num museu, por mais que viajem pela Europa apresentando trabalhos e dando
palestras. Priorizam dobrar o número de bois no pasto ou o número
de pés de café na fazenda mas nem se lembram de tirar uma
semana que seja para comemorar o aniversário de casamento,
com a esposa (ou mesmo o de namoro, com a filial).
Alguma coisa está errada com esses PhDs. Aprendemos,
nos Estados Unidos e na Europa, a ser cientistas. E somos. Dos mais sérios
e competentes que conheço, na nossa área. Mas esqueceram-se
da parte mais importante. Ficaram saxônicos demais, mesmo sem terem
cabelos louros e olhos claros. Esqueceram-se de nossa formação
francesa – humanística, por natureza. Estão permitindo que
a materialidade sobrepuje a espiritualidade.
E eu fico, assim, perdido no meio dessa conversa. Com eles,
dá para conversar sobre fitopatologia, futebol e mulher. Além
de contar piadas. Detesto futebol, posso contar uma ou outra piada e até
ser engraçado de vez em quando, falar de mulher acaba cansando –
melhor é executá-las. Mas falar de fitopatologia numa mesa
de bar, eu me recuso. Terminantemente, doravante...