Vejo Belo Horizonte como metropolitano mosaico de coisas boas e coisas ruins, bárbara e doce, civilizada e amarga. Talvez  por isso mesmo eu a ame com amor doentio e cigano de quem, nesta cidade feminina e vaidosa, já sentiu tantas vezes o gélido vento da desgraça e a cálida brisa de tantos momentos felizes. E dela sinto-me mais amante que marido, haja visto que em seus braços gostaria de estar sempre mas, na realidade, a visito de forma esporádica e, assim mesmo, com pressa.
 Prefiro não me lembrar de coisas tristes que,  como diz a música de Beto & Braga,  retalham o meu coração - a doença de meu filho mais velho, a morte de minha tia que me criou,  até uma cirurgia pela qual passei.  Mas é bálsamo para meu coração cansado relembrar, com ternura e com saudade, os momentos felizes que vivi, jovem e irresponsável, em suas ruas arborizadas, de traçado retilíneo, seus bares com cadeiras na calçada e mesas com  tampo de mármore.
 Se eu tivesse vinte e cinco anos agora, fosse solteiro e tão compromissado quanto a lua que, democraticamente,  ilumina, por igual, flores e pântanos,  eu ia lá agora, para passar uma noite e um dia. Vou  até escrever no presente, como se fosse hoje.
 Procuro um amigo mas não encontro companhia nesta sexta-feira fria de inverno para enfrentar as perigosas sinuosidades da distância física que me separa da capital. Vou mesmo só, já estou acostumado.
 Bagagem é pouca. A roupa do corpo e uma japona. Uma maleta de mão, tipo "James Bond",  com uma calça bonita, listrada e uma camisa rosa-claro, de abotoadura, uma cueca, um lenço, uns poucos objetos de higiene pessoal e um inseparável frasco de loção "Vitess", uma caneta-tinteiro, um bloco de papel personalizado e um livro - "Cem anos de solidão",  por exemplo.
 A viagem é longa, perigosa num "fusca", ao entardecer, por entre as mineiras montanhas. A solidão incomoda um pouco mas canto tangos em voz alta para enxotá-la ou ouço os últimos sucessos de Bethânia na fita nova que ganhei.  É muito bom ser senhor e servo da noite que se aproxima, macho jovem no cio, garanhão em busca de um amor vadio, irresponsável e fugaz, que vai pescar na capital o que não existe na provinciana cidadezinha.
 Vontade de declamar, espécie em extinção de uma fauna que já acabou, de poetas e sonhadores, faço o contorno de Ouro Preto e recito, para as pedras, para as sombras e para os românticos e inconfidentes fantasmas que seguramente me acompanham e velam por mim. Tomás Antônio Gonzaga (Meu sonoro passarinho...) e Alvarenga Peixoto (“Bárbara bela, do norte estrela..)
 Entre tangos com os quais desafio, desafinada voz de tenor, a insondável noite escura,  os melódicos  e roucos trinados da Rainha da Fossa e minhas barrocas poesias de amor sofrido, chego na corte. Avenida do Contorno, nervosa e repleta, depois a Savassi, a Praça da Liberdade, Augusto de Lima, esquina com Rio de Janeiro. Sauna Carlos Turner, a rica e curiosa fauna de todo fim de semana, uma barba caprichadamente feita, um filé com fritas na sala de descanso acompanhado de suco de tomate (porque será que gostam tanto desse suco em toda sauna que vou?), uma cara fechada para o costumeiro bicha que me espia com olhos molhados, um papo com um velho (cinqüenta anos, talvez?) sobre Rosa Cruzes,  um cumprimento a outro habitué (Dono do restaurante Mangueira, na Pampulha), uns quinze minutos para aplicar Glostora e pentear com provinciano esmero os cabelos abundantes e negros,  desodorante, perfume Vitess, que adoro,  e pé na tábua porque preciso achar uma mesa no “Uai”.  Hoje chama-se Casa da Pamonha mas, na época, era o “quente” da noite de BH, Rio Grande do Norte com Brasil, com música ao vivo, garçons de terno e gravata borboleta e “maitres” de “smooking”, pessoal da Polícia Federal  e do DOPS de terno, mulheres bonitas, com seus saltos altos, vestidos de noite, generosos decotes e disponibilidade infinita.
 Passo uma olhada pelo salão, Dalmi está numa mesa, sozinho e com cara de tédio, copo grande (deve ser Campari com vodka) na frente, um cinzeiro transbordando.  No tablado, a orquestra capricha em boleros melosos, bem ao gosto da fauna que ali freqüenta. Aceno, chego perto, cumprimento, deixo minha “capanga” ao cuidado do amigo, vou ao banheiro repassar um pente velho nos cabelos, dar uma olhada no visual através do espelho de parede a parede.  Bonitão, parece-me que eu pareço.  Volto à mesa e uma moça, numa mesa cheia de damas, acena-me. Respondo ao cumprimento, sem imaginar que, quase trinta anos depois, seria ela vice-governadora de um estado importante da federação, ainda que imaginasse, na época,  coisas meio confusas sobre quem sempre anda cercada de mulheres bonitas, de cabelos longos e mini-saia, pagando todas as contas, tirando minha mão travessa de onde ela não devia estar e mudando o assunto para política partidária, se falo de coisas mais imediatas...
A fauna (uso muito essa palavra, parece-me uma luva para casos como esse) feminina é peculiar. Para quem tem vinte e poucos anos, em busca de um amor  sem amanhã, elas são  coroíssimas, mulheres de trinta e poucos anos, dez anos mais velhas que eu.  Bonitas algumas, feias outras.  Mas muito coroas.  Muito bem arrumadas, saia ou vestido quase sempre, têm elas uma curiosa preferência pelo negro ao vestir, pela seda. Pernas bonitas, com meias ou meia calça. Saltos sete e meio, geração de civilizadíssimas primatas que operam milagres de equilíbrio sobre uma área de apoio muito menor que a sapiência da natureza determinou como mínima, do ponto de vista ergonômico.
Solteironas, desquitadas, viúvas, gente simples como eu mesmo, bem arrumadinhas e produzidinhas.  Batonzinho da cor certa,  um “rougezinho” salientando as zigomas,  extrema paciência com homens de um modo geral (alí, artigo meio raro), qualquer um serve, até eu, que nunca fui muito bonito.  Olho as mãos! Meu amigo Luís me disse, outro dia, que ele acha importante os olhos das pessoas. Até já notei mesmo que ele, se irritado, fixa-nos incomoda e catatonicamente nos olhos.  Naquela situação, olho as mãos. Para mim, mãos são o espelho da alma. Lembro-me de ter lido, acho que foi em “Arquipélago Gulag”, de Soljenitzen (meu Deus, será essa a correta grafia, complicados esses nomes russos!)  a história de um dos intelectuais tirados de circulação, em estalinistas tempos de Beria como chefe da polícia política,  conversando com o autor e tentando provar que todas as palavras, em qualquer língua, derivam da palavra “mão”.
Mas eu falava de mãos e de como, dentro de certos limites, elas refletem o ser de cada um.  Atentava muito, naquela época, para as mãos das damas - fossem mais jovens, eu diria mãos das moças.  Eram mãozinhas com um anel de brilhante, às vezes de esmeralda, nunca de aliança. Bonitas e suaves, essas mãos, tênues e descompromissados laços, suadas e quentes em minhas mãos, mornas  e aflitas, de mau dançarino!
Quantas vezes, envolvia nas minhas uma mãozinha branca e pequena, de balzaquiana delicadeza, aos dois passos de um “Besame mucho” ou de um suave “El dia en que me quieras”...
Na boca um sabor agridoce de Campari com vodka,  cujo odor procuro esconder com uma bala de hortelã. Olhar perdido, vejo sem enxergar os garçons de gravata borboleta e os “maitres” de “smooking” e olhar severo,  as mesas de toalha vermelha abrigando gente interessante e variada, os com mais de trinta, de terno e gravata,  femininos cabelos esmeradamente arrumados para parecer caixa de marimbondo, às custas de muito laquê,  o maestro calvo, também ele de “smooking”,  amigo que, no final da madrugada, quando as coisas  ficam meio difíceis e preciso de uma “ajuda”,  não se importa de tocar de novo coisas como “Only you”, “La vie en rose”, ou até mesmo “Amada amante”, sucesso quentíssimo de Roberto Carlos.
Olho para baixo e uma par de sandálias de tiras e salto finíssimo (sete e meio?) acompanha aflito meus sapatos de sola fina. Fico meio tonto com esse negócio de olhar para baixo, e levanto a vista de novo.  Que bolero gostoso, podia morrer assim!  Um brinco simples, de uma pedra só (brilhante? Duvido!) me olha de forma multifacetada.  Em minhas mãos, uma mão pequena,  descasada mão, que, se já usou aliança, nem marca ficou. Tropeço, de propósito, e sinto a maciez de um seio grande (depois confiro a rigidez) e macio, abaixo a mão e ela fica perdida em busca do lugar onde começa o decote nesse vestido de noite.  Olhos verdes são traição, minha avó dizia. Mas esses são verdemente verdes, enormes, molhados, lindos. Quantos anos? Trinta, trinta e um?  Pouca diferença faz ser tão velha assim,  são bonitas elas. Maço de cigarro numa carteirinha de couro, aflita os procura nos intervalos. E as mãos, não sabe o que fazer das mãos.  Um perfume meio enjoativo (“Avon” ? “Fleur de Rocaille” ? “Cabochard”?) mistura-se, insinuante, com seu cheiro de fêmea. Tem ela nome, lembro-me dele? Acho que não. Também não tem muita importância. Nomes e palavras são coisas que o vento leva, toma da gente. Por cima do vestido, posso sentir - como as mãos são órgãos sensíveis! - o início da calcinha no começo das ancas.  A música vai ficando mais romântica e mais lenta ao passo que ambos, maldosamente ignorantes das leis mais elementares da física, sem uma palavra, insistimos que é possível dois corpos ocuparem o mesmo lugar no espaço. Isca mordida, presa fisgada pois o anzol da sedução tem eficientíssima fisga e, para dizer a verdade, pouquíssimo interessada está a vítima em roubar a isca e sumir.
 Chamo Dalmi, corpulento Don Juan, que traz a tiracolo uma coroa, magra e aparentemente gestante, feia que nem a necessidade, peruca e unhas exoticamente pintadas de roxo. Faz frio e a dama me dá o braço. Nessa hora tardia da madrugada, faz frio e a saída para a BR está deserta. Baton com gosto suave, gemidos baixinhos,  a primeira conversa era uma cerveja no “drive in” (será que isso ainda existe nos dias de hoje?)  mas ela sente-se constrangida com os dois no banco da frente (ou é desculpa?) e sem maiores ponderações seguimos para o Hawai com sua entrada cheia de coqueirinhos.
 Acordo com uma mecha de longos cabelos negros fazendo cócegas em meu rosto. Ela ainda dorme. Vou ao banheiro e tomo mais um banho, desse geito me cobram mais caro pelo excesso de água que gastamos. Escovo os dentes e para disfarçar o cheiro de bebida, outra bala de hortelã. Faço rapidamente a barba, retorno ao quarto de cuecas, sempre tive constrangimento de ficar nu sem necessidade. Vejo-a semi-nua,  atravessada na cama redonda, linda, danada de boa de cama,  não tivesse eu 25 anos e não dava conta do recado, completíssima amante, de sete instrumentos. Ia pedir o café mas ela desperta e me chama. Eu ainda morro disso...