Corre a década de 60, sem o charme que teve na côrte, aqui simples e comum, quase igual a todas as outras, na pequena cidade do interior de Minas.  Junho, naquela época, era um mês realmente frio e saí de casa estreando uma japona azul de “cotelê”,  linda para a época mas, se fosse hoje, diriam que a estilista foi Sula Miranda ou Ivana Tremp.  Quando se tem 15 anos, sente-se pouco frio e a dita cuja é mais um adorno que uma real necessidade.  Mas, no caminho da sinuca, posso passar por "ela", uma moçoila ( meu Deus, naquela época eu lia Camilo Castelo Branco, passava uma noite em claro para terminar de ler  “Amor de Perdição” sem que ninguém mandasse!)  bonita e branquíssima, indefinível sorriso, de pernas grossas e seios mais que proeminentes, provavelmente emoldurados num sutien com armação de arame (com cujo conteúdo eu sonho, noites a fio, virando na cama que nem bicho-carpinteiro)  e cabelos onde a noite costuma dormir sorrindo, batonzinho vermelho, objeto ela de centenas de homenagens a Onan. Depois de tanto tempo, não me lembro muito bem do nome, acho que era Diana ou alguma coisa começada com “D”. Denise? Delma? Dalva? Mais ou menos por aí...
 Mas eu falava de tardes frias de junho e de adolescentes vaidosos. E de sinuca. Um ambiente vulgar, cheio de mesas verdes e sujas, onde costumávamos passar as melhores  horas de nossas vidas. Cheguei a ser um exímio jogador, apesar de minha proverbial falta de coordenação motora. E, com tanta prática,  dezenas de milhares de horas segurando um taco, giz azul na mão direita, giz branco no pescoço do taco, só não fui um campeão por absoluta falta de QE - Quociente Emocional, muito mais importante que habilidade, embora isso seja outra conversa e outra história.
 Família pobre, dinheiro contado, mas muito contado mesmo, no bolso e, além disso, pouco.  Muito pouco. Quanto seria hoje, para se ter uma noção ? Talvez uns 2 ou 3 dólares, não mais que isso.  Uma trepada na zona custaria uns 5. E hoje saí meio resolvido, senão acaba nascendo cabelo na palma da mão direita.  De onde tiro os outros dois ou três?
O jeito é tentar a sorte na sinuca, jogo de “vida”, assim chamado pelas suas inerentes peculiaridades. Ambiente infecto e enfumaçado, mais deseducativo que novela da Globo,  cheio de marginais socialmente desclassificados, a começar do próprio dono, mulato alto e moleque, amigado com “mulher de zona”, violento se provocado, cuja amizade cultivo até hoje,  considero mesmo uma honra para mim ser seu amigo, todo novembro, comemorando aniversário,  vou na sua casa tomar uma pinga, uma cerveja gelada, levar um abraço para a esposa do momento (deve estar na décima, se não for mais!).  “Vida” de mais ou menos, o que seria hoje equivalente a uns 50 centavos de dólar. Jogam sete pessoas,  oito no máximo, por causa da cor das bolas. Há uma bola sobrando e eu entro. Só “feras” - Galo, Birosca, Piruzinho, Gambá, Cananã, Ney, Itamar (de usual cara amarrada, uma dama no trato), por aí. Que nem o Menino Maluquinho que faz um impossível goal, depois de uma emocionante partida, ganho de Itamar, que ficou comigo para  final. As mãos, suadas e frias, recebem o bolo, após pagar o “tempo”. Vou embora, cara de bobo, uma quantidade de dinheiro no bolso enorme - seria, mais ou menos uns 10 dólares, para mim, na época,  quase um prêmio da super-sena.
 A tarde já se foi, é noite fechada. Apalpo, aflito, no bolso de trás, o bolo de notas. É hoje. Caminho rápido em direção à ruazinha humilde onde mulheres e moças de família não passam. Isso implica em passar pela praça principal, domingueiro lazer, com os homens dando volta num sentido e as mulheres no outro. Numa esquina, acho Chipanzé, levo-o comigo, cara de bobo e mais “virgo inatato” que eu mesmo, curioso ele para ver se tenho mesmo coragem...
 Só de pensar em e de caminhar em direção de, doía-me, palpitava e escaldava uma certa parte do corpo.
 Uma casinha humilde, ao rés do chão, ela toda talvez menor que esse escritório onde agora, mais de trinta anos depois, escrevo.  A “madame”, parecendo que saiu de um quadro de Lautrec,  branquíssima, gorda e cheia de varizes - naquele tempo mulheres usavam saia ou vestido - conversa com um moço todo de branco, na cozinha, ao lado de um fogão a lenha. Olho, aflitíssimo, as damas em disponibilidade.  “Careca sai do quarto, vermelho que nem um perú, Iracema atrás, enrolando uma toalhinha, correndo para o único banheiro da casa.
 Vamos? Mulata, bonitinha, mais ou menos da minha idade, baixinha e de pernas grossas, ela vai buscar uma toalha.
 O quarto é acanhado, quase só cabe a cama. Naturalmente, sem banheiro. Nem pia tem! Tiro a roupa, penduro num cabide preso à parede. Deito-me nu, morto de vergonha. A janela está aberta e entram besouros procurando luz,  mas não me atrevo a fechá-la.  Num terreiro ao lado, de terra batida, uma sanfona chora mágoas simples como simples deve ser essa mulher que daqui a pouquinho deve voltar para “tirar minha inocência”. Deito-me (fazer o quê?) e acho estranho, é a primeira vez que me deito numa cama fora de casa. Olho com certa desconfiança o lençol, branco e amassadíssimo.
 Lateja e dói “aquilo” que hoje vai fazer sua estréia.  Como hoje, quase quarenta anos depois, eu gostaria que latejasse mas que já não me obedece com tanta devoção.  Espio para o teto caiado, pintura tosca de um pintor idem, branquinho e irregular, a esteira com alguns buracos.
Eis que chega minha deusa. Despe-se de costas para mim, rápida e displicentemente, sem uma palavra. Não sei seu nome, nunca soube. Nem quantos anos tem. Comenta, jocosa, que já estou despido e chama-me de sem vergonha, de brincadeira. Para meu constrangimento, abaixa-se, alí mesmo na minha frente, e faz uma rápida e duvidosa  higiene das partes íntimas numa bacia branca e esmaltada. Parece que estou escutando, nesse momento, o chapinhar da água. Enxuga-se numa toalhinha azul, cheia de rasgados, de limpeza ainda mais duvidosa. Vira-se de frente para mim.
Linda a meus olhos, linda e nua, nas mãos uma toalhinha que deposita, ligeira, num criado-mudo sem idade, perto de um rolo de papel higiênico marca "Tico-tico" e de um quadro de São Jorge com o inseparável dragão.
Pela primeira vez na vida vejo uma mulher totalmente nua, que coisa mais bonita! Deitado, ameaçando o teto com o falo, constrangidíssimo e morrendo de sem graça, olho-a com os olhos semi-cerrados. Pernas lindas para meus padrões de adolescente, de neófito. Seios pequenos, a curva das ancas bem delineada, umbigo redondinho. Muitos anos depois, relendo Eric Maria Remarc (O Obelisco Negro), fico fazendo comparações.
Sorriso cansado de quem tem pressa. Simplesmente deita-se e abre as pernas... Perereca  eu nunca tinha visto. Feia a coisa, lembra-me, não sei porque, os bragres que Humberto de Campos, em suas Memórias, conta que pescava quando pequeno e que comparava ao pecado posto serem, ao mesmo tempo, feios e saborosos.
Espio meio espantado para a baciinha ao lado da cama e tento cumprir meu papel. Ela ajuda, afinal faz parte da profissão.  Vou por cima, mexo-me um pouco - não é para mexer? Acontece. E fico decepcionadíssimo. Acabou? É só isso? Só isso, não tem mais nada não? Tão rápido assim? Meio sem graça a coisa, esperava algo diferente. Preces mudas a Onan são mais interessantes, penso eu enquanto “apeio”. Não combinei preço, para quebrar constrangimento pergunto quanto é, usando a expressão “quanto é o câmbio” (sic), como me ensinaram os amigos mais velhos ser de bom tom perguntar, para mostrar uma machista e pretensa familiaridade com esse tipo de comércio amoroso. Ela dá o preço e eu coloco notas e moedas perto da toalhinha.
Visto-me rápido, cada vez mais confuso e constrangido, erro os botões da camisa, quase enfio as duas pernas numa perna da calça, enfio os sapatos sem amarrar, não sei o que dizer, nem o que devo dizer, será que devo agradecer? Quando ela abaixa-se novamente na bacia, corro para a porta (trinco maldito!), murmuro algo meio agradecimento meio promessa de voltar outro dia e sumo.
Passo morto de vergonha, provavelmente ruborizadíssimo, pela cozinha cheia de gente, achando que todo  mundo está me reparando e rindo de mim e ganho a rua.
Um vento frio fustiga meu rosto, respiro em longos haustos. Sou homem. Sou macho. Sou igual a todo mundo. Respiro novamente, acendo um cigarro. Sinto-me sujo. Caminho para casa. Na rua em frente, o movimento no cabaré Danúbio Azul começou. Passo pela porta, faço pose, na cara desavergonhada um sorriso de quem nuca fez outra coisa na vida a não ser freqüentar o lupanar. Mulheres simples, maltratadas pela vida,  excessivamente pintadas, roupas humildes, algumas sós, outras com fregueses, bebem e fumam nas mesas.
Dirijo-me para casa. Chipanzé sumiu, amanhã conto os detalhes para ele. Vem-me um medo terrível de ter pego alguma doença. Nomes terríveis como sífilis, cancro mole, cancro duro, blenorragia, cavalo-de-crista (o que será isso?), pingo-de-ouro (idem) e “mula” assolam minha frágil cabeça de menino e me parecem mais medonhos que as bestas do Apocalipse. Começo a suar frio, na testa e nas palmas da mão, ao lembrar das coisas horripilantes das quais fala Dr. Fritz Khan em seu livro “A nossa vida sexual”, uma espécie de livro de cabeceira e única fonte de informação sobre essas coisas disponível na época pois conversar com os pais nem em sonho. Preciso realizar os procedimentos que sempre se preconizou, nos intervalos de aula do colégio, escondidos no porão para fumar, com os colegas de turma. Aproveito um trecho escuro da rua para urinar em jatos, limpeza eficientíssima do canal, segundo "Cananã”.
Chego em casa e arranjo um desculpa para tomar um banho naquele inaudito momento.  Beatas, idosas e solteironas, as tias que me criam não acham nada de estranho. Nem mesmo quando entro para o banheiro sobraçando um vidro de álcool.
 Continuo os procedimentos tão discutidos, meses a fio, pelo grupo, no porão do colégio. Lavo exaustivamente o local,  passo sabão mais de cinqüenta vezes, lavo com álcool, agüento a dor calado. Com a unha, tiro uma lasquinha de sabonete e introduzo na uretra, meu Deus como arde, passo dias sentindo dor para urinar...
 Vou deitar-me. O sono não vem. Um turbilhão de sentimentos contraditórios cavalgam minha alma. Lascívia e culpa, desejo e repulsa, medo e euforia, insegurança e auto-afirmação...
Acendo a luz do quarto, tento ler, estico a mão para a estante, pego um livro ao caso. "A Carne", de Júlio Ribeiro, precisava ser esse? Porquê não peguei, numa questão de chance, Kazantzakis (O Pobre de Deus) ou A Vida de São Domingos Sávio, que ganhei de presente de Natal? Estendo a mão e pesco de novo, dessa vez vem Memórias, de Humberto de Campos. Inconscientemente, procuro o capítulo que fala dos bagres...
E vou lendo, relendo, até os galos começarem a anunciar o novo dia. Sono, mesmo, que é bom, sumiu que nem cabeça de bacalhau...