Doces e suaves, os filhos que Deus me deu. Encantado e comovido acompanho, solícito e presente, os eventos mais que naturais de seus corpos e de suas mentes, nesta aurora tão bela de suas vidas...
 Chego cansado do trabalho,  ave vadia em busca do usual refúgio e de mais que certo seguro abrigo.  Mal abro a porta e leio nos olhos da companheira - palavras, às vezes, são enfeites de retórica após vinte anos de casamento - algo de diferente, importante e sério, ainda que dentro dos limites relativamente amplos da normalidade, segundo minha percepção.
 A sós, me é dada a notícia, em voz baixa e longe dos outros filhos, com  praticidade de esposa, alegria de mãe, cumplicidade de amante  e timidez de mulher. Sílvia passou de menina a moça, telefonou da escola pedindo para buscar, tinha cólicas, chegamos agora!
 Dentro de mim, um machismo atávico grita coisas sem muito nexo, vazias e bêbadas, bobas e alegres. Minha menina, pequenina e doce, com ela também acontece! Fico meio sem jeito, fui pego meio de surpresa,  faltam-me palavras, acho que perguntei à companheira se, a  agora moça, estava bem.
 Covardemente, refugio-me no banheiro, tomo um longo banho, distraído pensando na vida, na velhice que chega para o pai de uma moça.  Coloco o pijama enquanto indago, meio encabulado, se já foi tudo explicado, se precisar de alguma coisa, como absorventes, remédio para cólica, sei mais lá o quê, eu visto de novo e vou buscar; e mais o que eu puder fazer, é só dizer que eu faço, mais ou menos por aí... Olimpicamente, ignoro um sorriso irônico passeando, provocador e vadio, nos lábios da companheira, sorriso que conheço bem e que ela guarda para momentos de cômica normalidade, quando o machão de voz de tenor, que arruma cozinha, lava fraldas e chora assistindo “Love story”,  entra em pânico sem a mínima necessidade.
 Vou ao quarto da dita cuja, vejo-a menininha, bonita e suave,  com cara de quem está muito bem,  nem dor parece estar sentindo. Fico, num lempejo, pensando como deve ter sido com minha mãe, com minhas tias que me criaram, beatas e solteironas, com minha avó. Encabulo-me de novo. Essa filha, tão cara ao coração do pai, desde pequena, sempre fez uma questão enorme de zelar por sua privacidade (parece com quem?)  e trata-me com uma incômoda distância, quando o assunto é delicada e exclusivamente feminino  como “aqueles dias” (não usa mais não, meu Deus!), namoro, virgindade, depilação (que a mãe me contou que é feito debaixo do braço),  e outras coisas das quais  presume-se que homens não participem, nem mesmo em sonho.  Beijo-a e dou os parabéns (era mesmo para fazer isso?), pergunto se está passando bem. Fico ainda mais sem jeito quando ela desconversa.  Volto correndo e pergunto a mãe se já explicou tudo, ela me responde, entre jocosa e impaciente,  que já fez tudo o que podia ser feito.  Tomei um cafezinho (requentado, acendi um cigarro, peguei uma escada, desmontei uma estante da biblioteca procurando um calendário. Não é para marcar na folhinha?)  O pior é que hoje, por alguma razão que desconheço, livros recusam-se a parar em pé, insistem em cair, mal os toco.  Sem olhar-me, enquanto escova os cabelos, a companheira diz que agora não, o único calendário que achei é muito grande e não cabe em lugar nenhum,  falta um mês para acontecer de novo, para eu fechar a porta da frente, desligar o gás, esvaziar o cinzeiro, insensível e desconsiderativa com um pai aflitíssimo que arriscou a vida subindo numa escada, de noite (podia ter quebrado o pescoço!) com a melhor das intenções.
 Com cara de bobo, hoje e agora, mais que todos os dias, vou escovar os dentes para dormir. Esqueci de comer, esqueci de gravar o noticiário da noite, esqueci de colocar o relógio para despertar, esqueci de dar um beijo nos outros dois que já dormiram, vou para a cama. Descobri que o único que ficou preocupadíssimo, náufrago num mar de angústias e incertezas, inconfessavelmente cheio de dedos,  orgulhoso e preocupado com o fato, fui eu. A meu lado, dorme  a companheira, ronca até. Sílvia já dormiu, levantei-me duas vezes para vê-la. Peguei um cobertor adicional e coloquei nos pés da Princesa - única filha, assim a chamo desde que nasceu - dizem que pés aquecidos evitam náuseas (será que essas coisas dão vômito?). Pus a mão na testa, febre ela não tinha. Na semi-escuridão do quarto, um porta-seios branco, pequeno e silente (pior era meu velho que chama “féche-éclair” de “reco-reco”) me espiava, atônito e ciumento da privacidade da dona dele. Credo!
 Busquei o pão de manhã, como faço todos os dias, coloquei a mesa do café - nem perguntei se estava levando para a escola tudo o que poderia precisar (sei lá o quê!) , a companheira deve ter instruído direitinho. Achei mais prudente não perguntar se podia comer queijo, o mais velho podia perceber (e ele, sabe-se lá de quem herdou, deve ser da família da mãe, pois eu sempre fui circunspecto, é  um gozador terrível e incoveniente). Mulheres são bichos complicadíssimos, a cada dia me convenço mais disso.  Como minha bonequinha agora ficou, digamos, “diferente”,  passa ela a entrar no rol das coisas complicadas com as quais devo e preciso conviver, no meu rasteiro dia-a-dia.
 Então, minha Princesa, é isso. No dia 23 de agosto, aconteceu de você ficar mocinha. Seu pai participou, viveu, até sofreu sem necessidade, o processo.  Fica aqui, no estilo do pai, registrado. Que minhas angústias e sofrimentos, meus temores e minhas  preocupações fossem tão simples quanto esses. Quando o dinheiro der, vou comprar uma jóia para você, algo com águas-marinhas, pedras muito mineiras e preferidas do pai. Quando você tiver uma filha, passe-lhe a jóia e diga que foi presente meu, para ela passar à minha bisneta, quando acontecer com a descendente o que aconteceu com você. Ando meio mal das pernas em matéria de finanças mas vou dar um jeito de levar você na “Amsterdan Sauer” ou coisa que o valha. E mandar você escolher, dentro de um limite, obviamente.
Seu pai,

R. Romeiro