“La Marseillese”. Com letra em português, falando em Tiradentes. Meninos de grupo, calças curtas e coração risonho, cada um de nós implícito personagem de Gonçalves Dias, entoamos a heróica canção revolucionária, em fila, por ordem de tamanho. Até hoje, ao ouví-la, relembro a velha, bondosa e austera mestra, os colegas de de cabeça raspada, as negras trancinhas da coleguinha bonita, a merenda de pão com goiabada, o picolé artezanal quando havia a disponibilidade de um trocado, a pasta com os cadernos e a velha régua de madeira...
 “Noches de Ipacaray”. Minhas tias, hoje velhinhas, então jovens, copiando a letra da revista “O Cruzeiro”, na sala da sede da fazenda - veleidade de moças solteiras. Tratando os cabelos com cerveja - primeira vez que vi de perto os pinguins da “Antártica”. A voz afinada e doce da tia mais nova, cantando, até entoadamente, mas com um sotaque de fazer Cervantes se revirar na tumba. Vovó, gorda e maternal, fritando lambarís que pesquei com um anzol improvisado a partir de um alfinete entortado com mestria de menino de roça.  Vovô consertando um arreio com um punhal de cabo verde (lembro-me bem!), punhal este que já cometeu façanhas mais polêmicas. O rádio enorme na sala, com dois tios ouvindo a irradiação da Copa e praguejando por causa da derrota do Brasil para o Uruguai...
 “Mulher deixada”, a voz bonita de Jamelão. Um copo de uísque na provinciana e escura boate da cidade, dose tripla, quase não cabe o gelo. Aqueles olhos castanhos já não namoram mais comigo. A rua escura e molhada de chuva. Saio à porta a tempo de ver os tais olhos castanhos, em cima de saltos altos e com os irmãos a tiracolo, entrar num carro, fingindo eles que não existo. Todas as vezes que escuto essa música, vem-me tudo isso à memória. Nessa noite, jurei, para cansados garçons, calvo e afobado proprietário, e para mesas vazias com forro xadrez de vermelho e branco, que eu ia casar com essa moça. Hoje, não mais moça,  um pouco mais gordinha e que é chamada de mãe por uns  meninos malcriados que são a minha cara ...
“A media luz”. Gardel, boemia, bebida, cigarro. Tarde quente de um dia comum de semana. Uma casa de dois andares, com porteira de avental  e tudo. Pernas bonitas, seios que ficam empinados sem precisar de sutiã (será que ainda me lembro da conjugação do verbo “soutenir”?), mini-saia, meias de seda, saltos sete-e-meio, penteados com laquê, lábios com baton bem vermelho (carminados, diria tio Pinto Coelho), cama redonda, espelhos em todas as paredes, no teto inclusive,  e ventilador de teto. Toalhinhas azuis. E um tesão enorme, coisa de gente no início da casa dos vinte.  A gente não se lembra mais de nomes ...
 “Mar negro”. Disco de 78 rotações, chiando. Tango bonito - um dia, com dinheiro da mesada minguadíssima, comprei esse 78 rotações em BH, era numa tarde de chuva, fazem mais de 30 anos. A tia-avó, bem velhinha e que gosta muito de mim, põe o dito para rodar. Descobriu que gosto de música.  Talvez se lembre de quando namorava o tio, gordo e bonanchão, sempre de terno, com seu indefectível cigarro de palha, sua simpatia e seu carinho também com esse sobrinho torto. Ela (além de vovó e vovô) foram as únicas pessoas no mundo que eu - mesmo rapazinho e sofrendo de passageira adolescentice - tomei a bênção, respeitoso e curvado como um bodoque, beijando a mão. Cabelos totalmente brancos, arrumados em impecável coque, nariz aquilino, severa no vestir e no comportar, tímida em demonstrações de afeto como todo Bernardes, ouvindo o raio do tango, até que se permitia um sorriso mais comprido, uma mão em meu ombro, uma pergunta mais pessoal, do tipo se eu estava namorando. Era um dia de tarde - pela janela eu via o pé de alecrim-do-campo que a bisavó plantou, florido e bonito -  e, até hoje, ao ouvir essa música, lembro-me dela, com ternura e com saudade...
 “Proposta”, voz macia de Roberto Carlos. À meia luz de uma boate de BH que hoje não existe mais, uma mão brinca com meus cabelos, eu de olhos fechados, dançando. O vestido cinza fala-me coisas importantemente sem importância, a blusa branca tem um timbre tímido de voz - contido como quem estudou a vida inteira no Sacré Coer. Coisas simples vão acontecendo e o salto alto termina por ir jantar comigo, mais um casal amigo, já de madrugada, na Cantina do Alvim. Insistente esse “eu te proponho...”. No caminho para Contagem (região de motéis), naquela fria e brumosa madrugada de junho,  uma ausência de aliança busca, no escuro, uma fita para o gravador do carro. Estranhamente, de novo, a mesma música. No cabide, ao lado da cama redonda, um  anel de solitária esmeralda acompanha dedos que arrumam, com timidez de segunda  ou treceira experiência,  um soutien meia-taça.  Eu nem me lembro mais do nome dessa calcinha rendada, mas lembro-me da música. “Eu te proponho...”
 “Raio de sol”, Dó Sustenido Maior. Uma valsa lenta e bonita, acho que quase ninguém conhece. Estou brincando - devo ter uns quatro ou cinco anos - debaixo da mesa enorme e maciça da sala de jantar.  Uma mão - velha e cheia de manchas senís - estende-me uma caneca esmaltada, grande e cheia de pão com café e pedacinhos de queijo mineiro. Depois volta para me dar uma colher. Essa mesma mão me prendeu, durante quinze dias, num quarto escuro, para a catapora não “recolher” (sabe-se lá o que significa isso!). E ficou, em promessa, o resto da vida sem comer carne, se Deus não me levasse, já que eu tive crupe, era franzino e ia morrer. Ficava a noite inteira acordada, indo ver se eu tinha febre repetidas vezes, essa mão que criou 22 filhos e agora criava um neto. Vi essa mão segurar com energia de mãe, a rédea de um cavalo, no pátio da fazenda, quase jogando no chão o cavaleiro - que engoliu, respeitoso, a imposição materna - quando mataram um filho dela e o moço do cavalo queria se vingar a qualquer custo.  Esse tio que foi morto, lembro-me dele - magro, moreno e bonito -, conversando com os irmãos na sala enquanto eu brincava no chão, um dos tios com o rádio ligado, “Raio de sol” de novo... Essa velha mão,  segurando uma chinela de pontas puídas, aplicou-me a única surra que eu, órfão de pai e mãe,  já levei na vida, com os tios e tias indignados  segurando-a - nem doeu! - e o tio com problemas mentais segurando a mão que me batia e desafiando-a, interpondo-se entre ela e o menino. Devesse eu ter levado mais surras como essa, talvez hoje eu tivesse menos imperfeições...  Porisso é que me lembro, com tanto carinho, de “Raio de sol”...
 Como sou casado e muito bem casado - afinal, fazem 21 anos que a mesma colombina se deita do lado esquerdo de minha cama - acho que não devo falar de outras músicas.