Parei vinte e um dias de fumar! Engordei uns cinco quilos ou mais.
Foram vinte e um dias terríveis, piores que trabalhos forçados
numa pedreira da Guiana Francesa na década de 40, uma missa (cantada)
rezada em rito maronita e assistida ajoelhado em grãos de trigo
sarraceno ou um toque de próstata feito por um médico alto
e gordo. Uma coisa horrorosa..!
Desandei a comer compulsivamente, levando pacotes de biscoito
e muito chocolate (que detesto e sempre detestei) para o trabalho, parecia
até um refugiado de Biafra. De repente, desapareceram as azias,
as dispepsias, as preocupações com colesterol... Uma fome,
crônica como pigarro de fumante e incomodativa como uma dor de cotovelo,
assola-me o tempo todo...
Tarde de sexta-feira, sessão de hipnose com terapia
de aversão. Aprendo, antes, que cigarro dá câncer,
efisema, impotência e amputação de membro (Êpa!).
Por quase uma hora, um grisalho e austero discípulo de Hipócrates,
formal como um britânico Lord, meio severo e meio paternal, uma figura
que inspira respeito e confiança, na casa dos setenta anos, alto
e parecido com tio Pinto Coelho, aconselha-me e ameaça-me. Antes
de hipnotizar-me, insiste calvinistamente nos males do fumo, transfigura-se
num missionário. Até com o Mal de Perony ele me acenou! Depois
vem a hipnose em si, volto para casa com chofer (viagem de 150 Km)
pois tenho medo de passar mal no caminho... Tomei um calmante, dois comprimidinhos
cor-de-rosa ( róseos, para evitar galicismos) de um diazepínico
(eu morro de medo dessas coisas) e fui dormir.
Isso, após prometer a mim mesmo subir a escadaria da Igreja
da Penha ajoelhado e de costas, ouvir contrito todos os programas eleitorais
de um certo partido que aceita como filiadas damas de pernas cabeludas
e olhos vermelhos (por causa de, digamos, conjuntivite) até o ano
2046 (meu centenário). Só catar carrapatos com luva de box,
dialogar com adolescentes sempre que possível, ler as obras completas
de Paulo Coelho e de Mônica Bonfiglio, só comer lagosta refogada
com chuchu e temperada com coentro, aposentar-me e arranjar emprego como
manobrista, tomar cerveja quente para o resto da vida, assistir a um culto
na igreja do "Bispo" (sabem quem), insinuar para meus filhos que Demy Moore
é sapatão, espalhar na imprensa que a Tiazinha é homem
(na verdade, uma versão transvestida do Zorro, com mau hálito
e problema de fimose), nunca mais entrar num restaurante tipo rodízio,
só aceitar doce de cidra se deixarem o amargo, escovar os dentes
com chá de carqueja, mandar azulejar as paredes da gruta de Maquiné
e pintar um bigode louro na Mona Lisa da próxima vez que for ao
Louvre. Se dessa vez eu conseguir parar de fumar...
No primeiro dia, uma luminosa manhã de sábado eu,
que acordo todos os dias para caminhar às 04:40 da manhã,
acordei depois das nove. Bem que o Luisão - cara de pré-efisêmico,
dedos amarelos de nicotina e sorriso sardônico pendurado nos lábios
- me alertou para o cessamento da síntese de endorfinas... Minha
mulher já tinha ido para o sítio, cansada de me esperar acordar.
Os meninos foram para o clube, a mocinha foi "bater canga" (como dizia
minha avó) no calçadão. Vou sozinho. Afinal, sítio
é meu programa em manhãs de sábado...
Atravesso o campus da universidade e, estranhamente, tento atropelar
um cachorro, subindo com o carro no passeio, de propósito.
De repente comecei a odiar animais, logo eu que trato meus três cães
como se fossem filhos, que coloco comida para os passarinhos todos os dias
no sítio, que nunca matei um animal depois que fiquei adulto...
Na estrada do sítio, minhas mãos começam a
tremer, o corpo fica molhado de suor, tenho problemas de visão dupla
e uma incontrolável salivação. Será que pulsação
a 160, em repouso, tem algum significado cardiológico? Delirium
tremens tabágico existe? Resolvo voltar. Ninguém em
casa. Arrumo a cama e deito-me, de pijama e tudo, colocando um lençol
por cima, inclusive, como se fosse para dormir. A empregada, conosco há
8 anos, que nunca me viu na cama a essa hora, nem mesmo quando voltei de
uma grande cirurgia, pergunta se estou passando mal. Ligo a televisão.
Não consigo prestar atenção. Não sei de onde
sairam, mas baratas de mais de dois palmos passeiam no teto. Estão
elas de terno cinza, igual ao do médico que me hipnotizou ontem
e riem para mim, mostrando os dentes (Credo!). Será que foi sonho?
Pode ter sido. Afinal, baratas não costumam andar vestidas, usar
gravatas nem serem tão grandes (Meus Deus, preciso aprender a usar
o infinito pessoal flexionado. Senão, uma revisora bonita, de olhos
castanhos, acaba me corrigindo) . Não posso estar delirando, acabei
de atender o telefone e conversei normalmente com uma amiga de Eliana,
lembro-me direitinho da conversa, era coisa trivial, foi sobre uma viagem
que as duas fizeram à Terra Santa - falamos longamente sobre a influência
da menstruação da baleia na cor do Mar Vermelho! Lautrec
via baratas vermelhas, mas elas eram pequenas, não andavam de paletó
nem riam mostrando os dentes... A esposa chega do sítio, me acorda
espantada e preocupada, não comenta nada. Vou almoçar...
E as coisas foram ficando complicadas ao longo desses dias. Dei
um empurrão no meu filho de dezessete anos, um tapa na mão
da princesa de catorze, um chute na bunda do caçula de onze. Mandei
minha mulher à puta que a pariu, logo eu que, nesses 23 anos de
casado, o máximo de agressão que cometi foi mandá-la
à merda uma vez, eu coberto de razão inclusive, numa noite
de quinta-feira, em maio de 1979, quando ainda morávamos nos Estados
Unidos... Agora, está todo mundo de mal comigo...
Minha mãe de criação, com quase 90 anos, entrevada
desde que quebrou o colo do fêmur, chorou porque falei que ela pega
manha e porisso não anda... Mandei meu melhor amigo tomar no cu
e agora ele passa perto de mim têso como um fantoche, fingindo que
sou transparente, sem responder ao meu servil e arrependido cumprimento
(Mal humorado esse cara!). Falei sem paciência com uma orientada,
quase chamei-a de burra (passou perto) e ela fez cara de choro. Tomei duas
placas de Petri da mão de um estudante e tampei no lixo. Com raiva.
Comprei uma ratoeira e matei um residente de meu laboratório que
dividia comigo o gabinete de trabalho há meses.
Acho que minha mulher começou a pensar que sou cachorro.
A gente não manda cachorro deitar? Toda a noite, quando eu tentava
trabalhar na biblioteca aqui de casa, ela falava comigo: "Bem, vem deitar.
Cê tá nervoso!". Isso, depois que gritei com um sanfoneiro,
do outro lado da rua, sugerindo-lhe (aos berros!) um indecoroso local para
colocar a sanfona. Explicando melhor, é o seguinte. Da janela de
meu escritório, avistam-se as primeiras casas de uma favela. Sempre
achei pitorescos os sons, os ruídos e as cenas que acontecem alí,
estimulantes, até para quem está estudando, lendo, trabalhando.
Um choro de criança, uma sanfona bem tocada, um foguete em dia de
jogo, uma barulhenta briga conjugal. Mas eu estava tentando não
fumar e tudo que acontecia ali me lembrava de cigarro. Esses meninos devem
chorar por causa da tosse de noite, se os pais não fumassem... Jogo
de futebol de novo, não aguento mais - esse monte de desocupadas
vendo jogo, tomando cerveja e fumando... Cachorro latindo. Mastins negros,
uivar, luz da lua, Augusto dos Anjos morreu com problemas pulmonares, ele
fumava. Não, vou pensar em outra coisa. Sanfona tocada com mestria
(maestria quase). Saudades de Matão, Saudades de Ouro Preto, Branca
(amores antigos), Asa Branca (eu menino), Desde el alma, Mar negro (surpresa),
Czardas (tropeça um pouco, mas também com tantas fusas e
semi-fusas...), Lisboa Antiga, Raio de sol (quanto tempo). Tangos depois.
Que bom que não tem música de fossa que sempre pedem um cigarrinho.
Sem Bethânia nem Waleska. Cumparsita (êxtase, a música
preferida desde pequeno), Tango para Tereza (nostalgia), Mi Buenos Aires
querida (Lua de mel), El penado 14 (adolescência), Quando as orquídeas
florescem (saudades da mãe que partiu), A média luz (jovem
e solteiro), Fumando espero - "Filho da ..., enfia essa sanfona no ..."
Aí eu escuto de novo: "Bem, vem deitar. Cê tá nervoso!"...
Parei de ir a festas e aniversários, numa inédita,
monástica e irreal forma de viver. Acabei perdendo dois amigos de
longa data, arranjando vários problemas de relacionamento difíceis
de consertar até hoje. Mas como é que eu vou tomar uma cerveja
sem fumar um cigarrinho?
Passei a acordar várias vezes durante a noite e ir procurar
alguma coisa na geladeira. Até há um mês atrás,
acordava uma vez só, para fazer xixi e fumar um cigarrinho. Fui
ameaçado de "separação de corpos" posto que isso não
é hora, ainda mais toda hora e, humilhação das humilhações,
"se, ao menos, as coisas funcionassem, pelo menos uma vez...". Ligo
a televisão, sozinho e acordado de madrugada, já que o sono
sumiu, e vejo o mesmo pastor pedindo dinheiro, todo dia. Quem sabe eu tenho
cara de ovelha para pastores me falarem desse modo? Tento balir (ovelhas
não balem?) mas o balido me soa estranho e vazio, como o ruido que
um tenor deve fazer quando dá uma martelada acidental no dedão.
Mudo de canal, muda de pastor mas o dinheiro continua a ser pedido. E se
eu mandasse um cheque com o "dízimo", quem sabe a vontade de fumar
passava?
Sinto dores agudas do lado direito do peito, quem sabe eu nasci
com o coração do lado errado? Tem gente que nasce! Essa pinta
que tenho nas costas desde pequenino, quem sabe é um melanoma, daquele
tipo que matou Pedro Collor em questão de dias? Ou um tumor de Askin
como o de Leandro? Meu dedo mindinho está dormente, esse é
o primeiro sintoma de esclerose múltipla. Ai, minha Nossa Senhora!
Vou ficar calmo, relaxado, tentar me distrair repetindo o nome dos 12 Césares,
dos afluentes da margem esquerda do rio São Francisco, dos metais
que expulsam o Hidrogênio da molécula do ácido, das
enzimas principais do ciclo de Krebbs - pelo menos, provo para mim mesmo
que ainda não estou com o Mal de Alzheimer...
A cada dia a vontade aumenta. Pensei que era o contrário,
mas não é. Passo a sentir um prazer quase sexual ao ver uma
queimada, talvez por causa do cheiro de fumaça que invade, lúbrica
e espaçosa, a orfandade de meus pulmões.
Num domingo de manhã, fico na espreita. Convidam-me para
ir à missa, respondo com o bom humor de uma mulher deixada por outra
mais feia, que Deus não existe e que precisamos é de enforcar
o último padre com a tripa do último rei. Tentando continuar
imunes à essa nova e estranha faceta de minha personalidade, abandonam-me
e vão para a igreja. Estou falando da mulher e dos filhos. Assim
que escuto o barulho do carro descendo a ladeira, enfio apressado
e de qualquer jeito, um "trainer" todo amassado por cima do pijama e saio
de casa. De chinelo, quase resolvo sair desalço mesmo. Pareço
um criminoso, um assassino profissional que vai cometer mais um crime.
Custa-me achar a chave do outro carro no chaveiro, mesmo sendo ela grande,
de cabo preto, diferente das outras. Estaciono meio atravessado na praça,
se quiserem multar que multem, tenho o raio do dinheiro para pagar, afinal
essa praça era, no século passado, pasto para as vacas do
meu bisavô, fardado nenhum pode ter o direito de me encher o saco.
Passa na minha frente uma mulata linda, com um decote do tamanho do ego
de Darcy Ribeiro e eu, olimpicamente, ignoro-a como se fosse ela um absorvete
feminino jogado no lixo. As mãos estão molhadas de suor,
respiro meio rápido. A moça do caixa parece uma pintura de
Modigliani, nem rosto tem, além de me parecer dolicocéfala...
- Me vê um Hollywood, por favor...