Je vouz en prie, madame.  Elegante e bonita - vestido creme, salto enorme,  latinamente linda, sorriso nos lábios por causa de meu sotaque pesado e rascante, imagino  - passa à frente e entra no banheiro. “Café de Flore”, quase meio dia. Faz um frio romântico de outono que começa. A companheira espera na mesa, acho até que pediu um vinho branco enquanto me aguarda... Meu filho, vê mais guardanapo para a gente.  Rosto mulato e bonito, nem vinte anos deve ter. Peroá é um peixe que se come com a mão, guardanapo é preciso, como navegar...
 No Golfo do México, as tardes são lindas e as praias mais aceitáveis que as da Flórida.  Ainda mais, nessa época, em que o sol demora para ir dormir. A água da piscina do motel (Motel, no bom sentido. E mesmo que não fosse. Afinal, é a colombina, magrinha como uma refugiada de guerra, que está aqui comigo e me traz uma toalha) é morna como o colar de sonhos e esperanças que a gente usa quando tem menos de trinta. Uma latinha de “Coors”, fazer o quê se não há Brahma? Paciência...  Chega amigo e solícito sem ser servil,  conhece-me de há muito, cumprimentou-me na entrada. O de sempre, doutor? Há quanto tempo sou freguês dessa cantina? Vinte anos? Naturalmente, uma pinga e uma creveja bem gelada enquanto espero meu filé à Rossini, olhando a rua (Amazonas com Tupinambás) encantado com a fauna apressada que palmilha essas calçadas de uma cidade que amo porque nela  já fui tão feliz e tão infeliz...
 Na saída da catedral de Colônia, cruzando a rua, tem um barzinho. A colombina, que geralmente não bebe, cismou de querer um “schnaps”.  Acho que se assustou com os sarcófagos dos Reis Magos. Até eu, que me considero menos bobo, sempre pensei que eles eram lenda, que nem Papai Noel, mula-sem-cabeça e saci-pererê. Bebida forte aqui, é em centilitros, o que complica mais ainda, não bastasse a estranhíssima língua, que não domino, nem mesmo em sonho... Pensando bem, se fosse hoje, essa lasanha podia ser mais bem temperadinha. Mas tenho 22 anos e o restaurante (meio lanchonete, meio botequim, São João com Ipiranga) me parece um sonho. Deve ser da Galícia esse garçon, fala de um modo tão estranho! Nem parece nossa língua!  Pelo menos é debaixo do hotel e eu tenho medo de cidade grande...
 Aqui, em Nassau, sinto menos banzo, a cidade é quase tropical.  Minha mulher acha bonitos (e eu também) esses negros simpáticos e sem a agressividade dos equivalentes americanos.  A negra alta e linda, com uma flor amarela de hibiscus no cabelo, o homem alto e forte que acende um cigarro, o menino que me pergunta - engraçado sotaque, parece britânico - as horas. Só as praias é que não são essas coisas mas para quem está vivendo no exílio voluntário, saxonicamente insípido, até ficam elas aceitáveis...  Guardei para você. Uma mãozinha um pouco mais rechonchuda que quando casou comigo, há vinte anos, escolhe, no preguiçoso caranguejo a descansar sobre uma folha de alface,  uma puã (o dito só tem duas, uma para o companheiro!).  A praia é quase selvagem, aqui em Olivença.  O garçom tem aquela cabeça chata de nordestino e aquela cordialidade comum na gente daqui. Meu caçula, se bem andou, deve estar dormindo, no seu oitavo mês de hóspede, a causar incontroláveis azias na colombina. Nos quase trinta países que conheço, nunca ví uma praia tão bonita....
Eu, tão pouco afeito a religiosidade formal, acabo assistindo a uma missa inteira na Catedral de Notre Dame de Montreal.  O Pai Nosso é em francês, depois em inglês. Contemplo a catedral,  em seu êxtase de pedra. Domingo de manhã,  um dia preguiçoso e bonito, com muito sol.  Muita gente, igreja cheia, católicos aqui levam as coisas a sério.  Nem uma mulher com manga curta, calça comprida nem pensar.  O padre é jovem, deve ter as minha idade... Seguro a menina com enlevos de pai, tão bonita essa afilhada que estou batizando hoje! Igreja simples, cidade pequena, interior de Minas.  Um calor tropical me faz molhar a camisa, saindo daqui vou tomar um guaraná...
Saindo da Catedral de Insbruck, domo em forma de cebola e estilo que lembra (ainda que não seja o mesmo) nosso mineiro barroco, lembro-me de minha adolescência vendo filmes de Sissy e sento-me no barzinho da praça, assistindo, com um jocoso sorriso nos lábios, o estranho diálogo, reforçado de mímica, que trava a tímida companheira em seu inglês quase perfeito e esse garçon de pouco sangue saxônonico, cabelos escuros e paciência também pouca, mais para Dante que para Ghöete.  Parece que o entrevero todo gira em torno de um vinho branco (aqui vendido, literalmente, em centilitros,  exageram esses austríacos no tocante a SMD), um “sauaerkraut” (que se pedir, eu nem provo).  Uma tarde bonita de outono, pertinho os Alpes que a gente foi criado só conhecendo visualmente em estampas de tampa de caixa de lapis de cor... “O senhor é quem escolhe. Prá mim, qualquer coisa. Vamos perguntar o que tem...” Olho com carinho os cabelos brancos desse sogro que há tanto tempo me acompanha na vida, me trata como se fosse seu filho (casei com a filha xodó dele), agora precocemente senil, coitado. Fui levá-lo para visitar parentes na cidade vizinha, paro aqui porque sei que ele adora comida mineira. Quando o garçom - caboclo adolescente, prestimoso e meio tímido -  informa que tem serralha, angú, frango ao molho pardo e mandioca frita, os cansados olhos desse amigo brilham...
“...pero es mui rascante, señor!”. Tudo bem, vamos escolher outro, penso eu. Uma mão jovem e bonita, que usa aliança no anular esquerdo há apenas 48 horas, toma o cardápio e tenta escolher comigo outra marca de vinho.  Com o mesmo carinho e ternura com que, muitas vezes nessa vida, ajudou-me a escolher, com seu claro e amigo discernimento, das cicutas, a  menos amarga  dentre as que os deuses me impuseram. Porque merece um bom vinho, acompanhando a excelente carne, nessa mesa ao ar livre na Plaza San Martin, bonita e luminosa, uma das jóias dessa européia cidade romanticamente repousando abaixo do trópico de Capricórnio...  “Pode encher até na risca, vamos ver se é boa mesmo”...Tardin, moleque e irreverente, magro e espevitado, determina ao moço de pé no chão e sorriso tímido,  o tamanho da pinga que devo tomar. Olho, com cara boba de quem sai de Minas pela primeira vez,  as árvores recém-podadas e de troncos caiados, da pracinha de Uruçuca. São nove horas da noite e moças humildes, caboclas e bonitas,  passeiam na praça, um auto-falante, talvez da prefeitura, faz uma barulho ensurdecedor, o disco 78 chia tanto que nem dá para escutar a música. Vinte anos, quarto ano de faculdade, contadíssimo dinheiro no bolso, quem dera se desse para uma cerveja...
Coisa mais engraçada. Restaurante iraniano, com cardápio em francês, aqui na Knight’s Road, nesse dia surpreendentemente luminoso, coisa rara por essa plagas. Meu Deus, que dantesco cosmopolitismo - a graçon, paletó branco e gravata borboleta, é filipino!  Só falta agora alguém se dirigir a nós em “cookney”, para completar a curiosa situação. Mas deixa prá lá, estou de férias aqui em Londres,  quando a gente tem menos de trinta tudo está ótimo. As sombrancelhas escuras da jovem e bonita companheira arqueiam-se quando chegam os pratos - carneiro ensopado, britânicas batatas, ervilhas. Uma mão bonita e feminina, naquele tempo um pouquinho menos rechonchuda mas já gulosa,  estende o garfo tira um pedacinho para ver se está gostoso... O sol é forte, a Praia do Morro está lotada, domingo de manhã é assim mesmo aqui em Guarapari. A gente vem, todo dia, na mesma barraca, uma turma grande de Viçosa. Fernando, que normalmente não bebe, engole, como se fosse água, uma pinga dupla. Vaidoso, vai provar ostra pela primeira vez na vida, precisa de coragem. Se todo mundo prova, porque não ele? Olho divertido, embora, a essa altura, as coisas estejam, curiosamente, duplicadas. Até as pernas bonitas e morenas da moça de Sabará que ontem saiu comigo. A cara que ele faz! Só mesmo em mineiras plagas nascem mulheres de quatro pernas, filosofo eu, mordendo a perna cabeluda de um caranguejo...