Acho que estou vivenciando minha primeira experiência
como sogro e confesso que não estou achando graça nenhuma.
Muito pelo contrário, por sinal. Não tenho muita certeza,
não juro de pés juntos, mas ando desconfiado. Coração
de pai de moça bonita é esperto como mineiro que compra bonde
para vender para paulista.
Pelo menos tenho visto, com frequência muito mais que normal,
um par de abomináveis e profundos olhos verdes (prefiro castanhos,
negros, azuis, cinzentos, violetas que nem os de Liz Taylor, prefiro até
sem olhos, completamente cego, em se tratando da filha da gente,
quanto menos enxergar, melhor) chamando meu caçula (que tem
metade da idade do perigosíssimo desinquietador de filha dos outros)
para brincar, isso um monte de vezes por dia. Chego a sentir meus olhos
ficarem embaciados de lágrimas, ao perceber tanta dedicação
e desprendimento com meu caçula, ainda mais de repente, assim sem
mais nem menos, depois dizem que a filantropia acabou... É verdade
que, há quase quarenta anos, eu também passei a achar, sem
mais nem menos, interessantíssimo brincar com um menininho recém-saído
das fraldas, filho de um militar que morava na minha rua, desde que fosse
para ficar perto de uns olhos azulíssimos e mais que profundos,
de vestido branco, com anágua azul e tudo, meu Deus, como sou antigo...!
Cheguei do trabalho e, ao deixar as coisas no escritório,
o cidadão me cumprimentou chamando-me de “você”, tratamento
pelo qual nem o reitor ou os colegas mais jovens de Departamento, portadores
eles de diploma de PhD, costumam me tratar, se bem que nunca fiz questão
dessas bobagens, a não ser quando o mais moço se dirige ao
mais velho...
Falei com a companheira, numa hora de calma, manhã
de sábado no nosso sítio, ela displicentemente procurando
ensinar bons modos a uma muito rebelde trepadeira (de repente, passei a
suar frio e ter arrepios sempre que ouço essa palavra!). Coisa estranha,
nos últimos tempos, quase todo mundo anda rebelíssimo aqui
em casa! E eu, com cara de camelo em zoológico (já
viram que bicho mais com cara de bobo?), balançando um cigarrinho
e um copo de cerevja, escutando Lupicínio (Nervos de Aço,
apropriadíssimo, “me vem um desejo de morte...”), converso com a
putativa sogra sobre essas coisas. Displicente continua seu trabalho a
tesoura de poda que eu trouxe como presente de minha última viagem,
devia eu ter trazido um tanque de lavar roupa, preciso aprender a colocar
mulheres em seus devidos lugares. Todas elas, inclusive essa pirralha que,
desde agosto, guarda, no armário, uma caixinha com absorventes femininos.
Essa colombina, que não faz muito tempo tomava banho
comigo e era catarrenta e dentuça, tinha uma mechinha loura nos
cabelos que eu desembaraçava com muito “rinse”, agora tem
longos cabelos que a noite invadiu como posseira, olhos mais ou menos
da mesma cor (tomei duas cervejas, estou falando demais em olhos), linda,
acho eu - corujísimo e enciumadíssimo pai (rebelde ela que
nem uma militante do ...- vocês sabem o quê), de repente ficou
mais macia no trato que qualquer colega de Jane Avril ante uma nota de
cem francos.*
O caso é que eu estou com ciumes. Ou com ciume, sei
lá se é plural. Sei lá se tem assento, deve ter. Nessa
idade em que ela está, nem banhos muitos compridos eu ainda tomava,
imagine-se escrever bilhetinhos, como eu vi outro dia a colombina fazer,
num papel cor-de-rosa e cheio de florezinhas, que eu não devia ter
dado de presente antes da dita fazer quarenta anos, trancando-os, inclusive,
a seguir, num diário com chave e cadeado de segredo!
Não é sem motivo que, há quase vinte anos, recém-casado
e de férias na Europa, extasiei-me em Veneza ao contemplar,
no Palácio dos Dodges, um cinto de castidade, com cadeado e tudo!
E morte, por distanásia, se possível, ao anônimo inventor
do abridor de latas. Ontem, hoje e sempre!
Cheguei do trabalho, escutei essa colombina ao telefone. “A
gente se vê amanhã?” (Pausa) “Jura?” (Pausa) “Então,
tchau.” Acho que só não mandou beijo porque eu cheguei perto
na hora, cerzindo a testa como dizem que meu pai fazia quando algo o desagradava.
Como pode mandar beijo a não ser para o pai? Ou pode? Em verdade,
pode e deve, minha princesa, mulher precisa de gostar de homem, colocar
um cabo de garfo de formicida Tatú num copo d’água e beber
po causa de homem, essas ciumadas de pai são coisas de aprendiz,
bobagens que passam depressa.
Saí para dar uma volta de carro, sentia-me abafado,
precisando de ar puro, fui e voltei à cidade vizinha umas três
vezes. A jovem dama de quem se fala ficou, como dizem os americanos, “all
of a sudden”, interessadíssima em andar de patins, desde que
seja no prédio ao lado, cheio de rampas e subidas, enquanto o nosso
é planíssimo mas sem a vista ( no entender da dita cidadã,
na minha não) tão atraente. Pessoalmente, espio para o raio
do prédio e acho-o até mais feio do que o nosso, tudo é
uma questão de gosto. Se bem que o interesse apareceu depois que
o telefone tocou aqui em casa, nunca vi gente com tanta boa vontade para
atender assim...
Tenho um sitiozinho, onde passo fins de semana, quando esses
filhos enjoados da minha mulher deixam e permitem. Quando essa colombina
nasceu, fiz questão de plantar um pé de jaboticaba e rezar
sempre para a jaboticaba dar primeiro. Esse ano a maldita jaboticaba ameaçou
dar flor, vou pulverizar com uma overdose de ácido naftaleno-acético,
de giberelina, até de ácido sulfúrico, se for preciso,
mas flor ela não dá nem que eu tenha que arrancar, um por
um, os estames com uma pinça...
Sonsa, essa colombina. Assim que sobrou um dinheirinho, comprei
uma repetição de 8 tiros, calibre doze, cartuchos maiores
que um vidro de Novalgina (meu Deus, que nome mais indecente para um remédio
usado em casa onde habita uma donzela!), trouxe de Belo Horizonte, com
porte e registro. Quando acho que está aprecendo mais rapazinho
que devia aqui no sítio, ou quando o mesmo aparece com mais frequência
que imagino, tiro a bicha da parede, faço limpezas, treino pontaria.
Essa sonsa que apareça aqui com andrógino de
brinquinho e rabo-de-cavalo, para ela ver se eu não arranco o raio
brinco com uma carga de chumbo grosso! Perguntado sonsamente pela
sonsa colombina para que eu tinha comprado aquele “canhão”, essa
foi a resposta que lhe dei!
R. S. Romeiro
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