Tenho o hábito, saudável ainda que bastante excêntrico,
de caminhar uma hora todos os dias. A excentricidade, fascinante deusa
em cujo altar não raro deposito furtivos tributos de fidelidade,
fica por conta da hora que escolhi - quatro e quarenta da manhã.
Mesmo nas mais frias e brumosas madrugadas, sou fiel andarilho, para espanto
da maioria das pessoas.
E muito antes do raiar da luz primeira, palmilhando, invariávelmente
sempre o mesmo caminho, percorro uma exata légua.
Afora razões médicas e de sobrevivência,
afora a aparente ou real excentricidade da hora, há mais motivos
porque caminho e porque caminho a esta hora.
Céleres passadas, sincrônicos movimentos
de braço, respiração controlada, olhos perdidos nas
lâmpadas ainda acesas, pastoreio displicente o inquieto rebanho de
meus pensamentos.
É caminhando, em absoluta solidão, que recolho-me
dentro de mim mesmo, mastigo meus sentimentos, exorciso meus demônios,
choro comigo mesmo minhas máguas e minhas angústias, brigo
em pensamento com quem deveria ou gostaria de brigar em pessoa (para não
ter que fazê-lo de fato!). É nessas caminhadas de madrugada
que dou asas a meus sonhos, relembro casos e fatos do passado, faço
planos e soluciono problemas. Posso até sonhar que ganhei na loteria
e o que fazer com o dinheiro!
E trabalho também, por incrível que pareça.
Não raro, nessas matutinas caminhadas, procurando dentro de
mim mesmo, encontrei a solução para um problema de
uma tese que oriento, o aperfeiçoamento de uma técnica
que não está fucionando bem no laboratório, a idéia
para uma nova pesquisa, o argumento inicial para a introdução
de um trabalho que estou escrevendo, a sequência lógica de
uma aula a ser dada. Olham-me estranhamente meus orientados de mestrado
e de doutorado quando lhes digo que, antes de decidir ir nesta ou aquela
direção na pesquisa que conduzimos, preciso de uns três
dias de caminhada, para digerir o problema! Minha prova de didática
para o concurso de professor titular, na verdade uma aula, dei essa aula
uma semana inteira, caminhando, quando procurava a sequência mais
adequada, a abordagem mais racional, a resposta o mais honesta que me foss
possível para possíveis perguntas.
Madrugadas de julho são gélidas como formais
cumprimentos de ex-amantes mas são românticas, se as quizermos
ver assim. As madrugadas, bem entendido. Numa cidade pequena, vale a pena
leitores de Humberto de Campos, admiradores dos filmes de Costa Gravas,
escutadores de Chopin, fãs de Lautrec, atentar para o romantismo
do despertar das coisas e das gentes, em sua monótona e romanticamente
frugal rotina...
Há um mecânico, cujo nome não sei, mãos
calosas, roupa de indefinível cor tal a quantidade de graxa, fumando
um cigarro sem filtro, magro, baixinho e bisonho, primeiro com quem topo,
pergunta-me sempre se vou a Coimbra ou a São Geraldo...
Passa um carro, escuro, veloz e ansioso, indistinguíveis
rostos ainda rendendo intermitentes preces a Morfeu.
As luzes do hospital, acesas, denunciam para a noite os dramas
anônimos de cada janela acesa. O que será, medito enquanto
passo, sofrem alí meus irmãos da noite? Eu, que tanto convivi
nesse ambiente, na doença da minha velha, depois na do meu velho,
depois na minha mesmo, o que será que se passa? Tento afastar depressivos
pensamentos - morreu um menino, não conseguiram pegar a veia de
uma velha com derrame enquanto o filho se desespera do lado de fora (eu
já vi esse filme antes...), um homem de meia idade não
consegue dormir depois que soube que tem câncer (idem), uma
mocinha chora porque o pai partiu... Melhor não pensar nisso!
Passo em frente ao grupo escolar e remonto, meio comovido,
há trinta ou quarente anos, quando alí, eu - qual personagem
de Gonçalves Dias - vivia uma infância risonha e linda...
Chego à praça deserta. Uma moça bonita,
de roupa preta, passa carregando uma mala enorme, deve estar indo para
a rodoviária...
Na esquina, estacionado, um carro da polícia, com dois
soldados dormindo, nem meus barulhentos passos os acorda... Evito um protocolar
bom dia (protocolar porque não os conheço, evito para não
despertá-los).
No calçadão, o termômetro marca 5 graus.
Frio, muito frio, para nossas tropicais expectativas e equatoriais usos.
“Ica” - mendiga, alcoólatra e meio maluca, está acordada,
arruma a cama - jornais e pedaços de caixas de papelão,
uma panela suja, coisas miúdas que ela junta e carrega para os vãos
de porta onde dorme. Por causa da minha roupa branca, olha-me desconfiada,
pelo canto do olho, olhar meio atravessado, com medo de eu ser médico
e querer interná-la...
A essa hora, homens humildes - funcionários da Prefeitura,
presumo - varrem, alegres, despertos e falantes, o calçadão,
anjos a reparar resignados o que nós, urbanos e selvagens, fizemos
de mal feito durante o dia...
Passam por mim e com mais pressa que eu dois trocadores de
ônibus (choferes, talvez?), cara de sono e uniforme da empresa, limpinho
e engomado...
Entro na avenida deserta e vejo a Estação Rodoviária,
destacando-se pelas luzes na madrugada escura, intenso movimento de muitos
ônibus, lembro-me, não sei porque, com saudade, de meu antigo
professor de Latim, que me obrigou a escrever, voltando de castigo ao Colégio,
todas as tardes, 300 vezes a declinação de “omnis,
omnibus”, difícil essa terceira declinação, só
porque eu não sabia seu significado. Folhas de almaço, compradas
no seu Antônio Torres, caligrafia impecável, ai de mim se
esquecesse um pingo no “i”...
Passa por mim um caminhão de entregas, deixa um odor
desagradável de óleo Diesel queimado no ar, logo eu que escolhi
essa hora para caminhar também porque não gosto desse cheiro...
Mais à frente, passo por um guarda-noturno, trabalha
num prédio da avenida, sempre alegre e bem humorado, deseja-me
bom dia, efusiante em sua simplicidade, capa comprida, um chaveiro enorme
pendurado na calça, sorriso de menino, bom dia doutor...
Na entrada do campus da universidade, um fato inusitado. Chega
um taxi, uma moça desce e ameaça se atirar na represa. Representa
ela, mulheres fazem essas coisas, a minha nunca fez, mas um dia pode ter
uma recaída. Daí a pouco, chega outro taxi, desce um moço,
ainda de pijama (parece-me) e tenta convencê-la. Devagarzinho, encosta
um carro da Polícia Civil, parece que está tudo sob controle,
apresso o passo para não servir de testemunha...
Os costumeiros conhecidos que sempre caminham nesta hora,
eu os encontro, cumprimento alguns, respondo aos cumprimentos de outros.
A viúva de cara fechada e cabeça baixa, o sessentão
atlético e alegre, a professorinha séria com cara de sono,
as duas irmãs tagarelas e efusivas, o agiota de sandália
havaiana e camisa branca de manga comprida, a dama feia e avessa a cumprimentos
que carrega sempre algo num saco plástico (água? remédio?),
a mulher do político da cidade, muita gente escolhe este estravagente
horário, depois deizem que eu é que sou meio doido...
Caninos e anônimos amigos de um momento, magros, carentes
e famintos, acompanham-me parte do trajeto. O suor broteja quente e fica
gelado nas partes do corpo expostas ao tempo. Um cheiro enjoativo de tempero
exala do restaurante universitário. Funcionários da ronda
do campus passam aos pares, de vez em quando.
Passo em frente à represa e rezo uma ave-maria por
um estudante que ali se suicidou, já faz tempo. Mais adiante, rezo
de novo para um amigo que morava numa casa da instituição
e morreu, tão jovem, coitado. Mais adiante, mentalizo o rosto jovem,
determinado e suave da filha de um colega - ela correndo risco de vida,
ele que teve desentendimentos comigo no passado mas é pai como eu
- e rezo pedindo pela mocinha.
Chego ao ponto de retorno. A manhã, dependendo da época
do ano, já ameaça nascer, como dizia o vate - com as raias
sanguíneas da madrugada. Um pouco adiante está meu sítio,
lembro-me de meus cães, bravos e fidelíssimos, minhas orquídeas,
as flores de minha mulher, meu pomar, quase dá vontade de andar
mais um pouquinho e chegar lá.
Ao iniciar o retorno, a hora mais difícil. E a mais
humana, também. Faço o sinal da cruz e inicio, pausado e
contrito, um padre-nosso. Rezo pelas pessoas de quem não gosto,
para que Ele me ensine a perdoar. Afasto, com raiva, pensamentos vagabundamente
ruins e mágoas furtivas. Eles e elas voltam, insistentes, e repito
o padre-nosso para exorcizá-los a todos (os maus pensamentos, bem
entendido). O frescor do dia, o perfume da madrugada, o bálsamo
da oração (e, provavelmente, a endorfina sintetizada após
meia hora de rápido caminhar, para ser um pouquinho materialista!)
trazem-me uma paz enorme. Decido então correr um pouco, esqueço
os desafetos, preocupo-me com o controle da respiração. Fumante,
quase cinquenta anos, não vou muito longe - paro ofegante, caminho,
volto a correr de novo.
O nascer do dia afugenta as luzes da rua como se fossem elas
demônios que os primeiros raios de sol precisam exorcizar com telúrica
insistência. Operários passam por mim, roupas simples, alguns
cumprimentam. Paro na praça para um papo curto mas fiel com os choferes
de taxi, vejo colegiais, bonitos e com cara de sono, como se
fossem andorinhas...
Na padaria, seu Juca, simples como uma manhã e jovial
como namoro de adolescentes, me passa o leite e os pães, pergunta
se preciso de cigarros, se o queijo acabou, desistiu de falar em futebol
comigo depois que ficou sabendo que eu - atávico agarófobo
- torci muitos anos pelo Pacaembú, até descobrir que Pacaembú
não é time, é campo de futebol.
Apresso o passo novamente. Chego em casa e ligo o rádio
da cozinha, Beto e Braga capricham no “Só Deus sabe”. Começo
a por a mesa do café e uma sonolenta cópia de mim mesmo -
espinhas no rosto, negros cabelos que não podem ser nem tocados
- me dá um beijo. Daí a pouco uma mocinha linda sai,
de camisola, do banheiro e me abraça, apressada. Quando eu não
caminho, trazendo o pão quentinho, esses parentes da minha mulher
vão para a escola de jejum! E isso eu não posso deixar!