Manhã de domingo, luminosamente gélida. Lá fora, cai a neve em flocos diminutos, quase cinquenta graus abaixo de zero! Banzo. Sentimento de depressão. Meu coração latino sente-se oprimido nessa terra estranha, habitada por gente protestante, de alma fria e coração frio. Meus tropicais costumes se anulam nessa terra, cheia de impessoais olhos azuis, de cutis mais que branca e de cabelos claros. Agora entendo melhor a estranha doença que acometia os recém-desembarcados de navios negreiros.
 Da janela da sala vejo uma macieira ornamental, sem folhas, toda branca, impessoal como esse país feio e desumano. Sorvo, desanimado, um gole de cerveja aguada e sem gosto. Meu Deus, que saudade do Brasil. Ainda bem que tenho a companheira, sempre de bom humor (será que ela finge?), meu amparo e meu refúgio. Olho com raiva esse espectro de macieira e penso em palmeiras, até recito baixinho os versos clássicos  de Gonçalves Dias - ... minha terra tem palmeiras...”
 Tenho fome, salivo de forma incontrolável.  Acho que estou delirando.  A tantos graus abaixo de zero, penso em coisas como ora-pro-nobis, serralha com angu, mandioca frita, pão de queijo, taioba, quiabo, linguiça, canjiquinha, caldo de mocotó, carne-de-sol, doce de coco, começo a sentir dor no estômago. Até náusea.
 É hora do almoço e a bonita colombina, cantarola enquanto prepara alguma coisa na cozinha bem menor que metade do banheiro da minha casa agora. Estranhamente, dobrou o número os cubos de gelo do meu uísque.  Porque será que essa colombina afixou na parede “posters” em duplicata de nossa mineira Ouro Preto?  Meu Deus, quando eu casei, ela não era gêmea. Estico a mão e ponho uma fita que trouxe do Brasil. “Brasileirinho”, Waldir Azevedo. Precisava de ser essa?
Meu senso de brasilidade e de latinidade incomoda-me, de tão intenso, parece uma menopáusica onda de calor.  Os galhos hipobióticos das  macieiras ornamentais se dobram com o vento. Um jarro de vidro transparente, comprado numa loja de departamento, contendo terra do Brasil que eu trouxe num saquinho plástico, descansa, impávido, sobre um mapa de Minas. A colombina se agasalha, vai à caixa de correio e volta trazendo meu Pasquim, fiz assinatura, pago em dólares - jovens meninos de muito talento (Paulo Francis, Ziraldo, Fauto Wolf, Jaguar), com sua irreverência, amenizam meu voluntário exílio.
 A televisão avisa para a gente não sair de casa. Mineiros de carvão estão em greve, a universidade fechou ontem, pela primeira vez no século. Aqui dentro está quente, parece um útero.
 Uma mão bonita e amiga coloca em minha frente um pratinho. Fecho os olhos para não ver. E sonho. Deve ser meu mineiro chouriço, talvez um inhame frito, torresmo, um caldinho de feijoada, pelo menos cubinhos de queijo mineiro, talvez até um simples quibe. Abro os olhos. Olho com raiva (não devia, coitadinha) para um pratinho inquebrável (?) com ostras defumadas (parecem pererecas secas - o bicho, bem entendido) e cubinhos de cogumelos frescos  temperados com queijo Roquefort.
 Continua caindo a neve. Olho para a dama que se arriscou a vir aqui comigo e fico com pena. O almoço está quase pronto.  Uma mãozinha delicada abre uma latinha de cerveja (impronunciável nome) e senta-se no chão comigo.  Não reclama, não se queixa.  Mas vi  (e fingi que não vi) uma lágrima furtiva em seus olhos, quando, de manhã, telefonaram do Brasil e ela falou com o pai.
 Um colega, que faz bioquímica comigo, discriminado como eu por ser negro, pobre e das colônias (é professor nas Ilhas Virgens, quase um estado americano como Puerto Rico), moço competente e bom em bioquímica) bate na minha  porta.  Não quer uma cerveja, está aflito com o dever de amanhã. Pede desculpas por incomodar na hora do almoço, mas estão faltando dois ATP no ciclo de Krebbs, ele não consegue entender muito bem, quem sabe o colega etrangeiro (com os compatriotas, não pode contar mesmo) ajudaria. Naturalmente, eu também não sei mnuito bem, vamos dar uma olhada juntos, deixa a colombina esperando, ela tem esperado por tantas coisas...
 Um dia eu ainda saio aqui de madrugada e corto essas macieiras com um serrote. Elas brincam cruelmente comigo, dobrando-se para a direita e para a esquerda, ao sabor do vento, como se fossem estandartes de agonia, símbolos invernais de morte. Esse vento, protestante e impessoal, açoita-me o rosto, faz meus dedos ficarem congelados mesmo dentro da luva de dois dedos,  me jogou no chão outro dia...
Doutorado precisa ser assim tão doído?  A parte acadêmica é simples, qualquer um faz. Tiro isso de letra, sem jamais precisar estudar em fins de semana. Qualquer idiota pode, até eu. Mas a parte emocional, a convivência com esse país complicado, com esse povo tão atrasado (em termos comportamentais) é sumamente difícil!  Hoje  a moça que dorme comigo me disse uma verdade fundamental  - EUA parece desfile de escola de samba - é sempre e tudo igual igual!
Parecem eles yanomames.  Comem com a mão, batem porta na cara dos outros,  pensam que brasileiros falam espanhol e moram no mato,  usam gravata de bolinhas com camisa listrada,  nunca estudaram latim,  não sabem a capital do próprio estado onde vivem, fazem churrasco de carne moída. Moças lindas, de dezoito ou vinte anos, vão à piscina com maiô de saiote e pregador de roupa no nariz, não tomam cerveja na praia nem depilam as axilas.  Uma vez, vi a mulher de meu orientador de saia de godê e tênis, lampeira e alegre, nos seus sessenta anos bem vividos! Credo!
Lembro-me da colombina indo a um congresso científico com a orientadora (uma segunda mãe para ela, justiça seja feita), as duas de carro, mil milhas de distância.  Na noite do outro dia, curtindo minha solidão numa sala menor que o canil de meus cães do sítio, vendo, melancolicamente, um programa na televisão mais interessante que dançar com prima por obrigação, e mastigando desconsolado uma coisa congelada que comprei ali perto de casa - menos saborosa que a ração de meus cachorros e com apelo visual um pouquinho pior que um absorvente feminino achado numa lata de lixo -  telefona-me a colombina. Para contar do coquetel do congresso, num hotel cinco estrelas, por sinal. “Meu bem, parece que estou num baile de carnaval! Elas usam saia rodada, chapéu de frutas de plástico na cabeça - tem mamão, cacho de uva, até um abacaxi pequeno - saltos enormes (na altura e no tamanho, a de pé mais pequenininho deve calçar quarenta e quatro!), lambem dedos sujos de maionese” !
Trato-os com certa distância. Povo complicado.  Não sinto a mínima identificação com os valores dessa gente de olhos azuis e frios, protestantes que me discriminam porque sou, além de latino de olhos castanhos, estrangeiro e católico. Pensam eles que eu queria obsesssivamente, ficar lá, como imigrante.  Deus sabe que, o dia mais feliz da minha vida foi quando eu entrei no avião para retornar à  pátria.
Até hoje, vinte anos depois, há duas coisas que detesto - uisque e carne de perú.  Fiz bons amigos entre eles, em verdade - sempre com os diferentes, os tortos - amizades que até hoje cultivo.