Às primeiras luzes da década de
70 , recém-egresso do mestrado e jovem docente da UFV, eu já
havia, como o mitológico Ulisses, ouvido e me deixado fascinar pelo
canto das sereias. Só que as sereias das quais eu falo são
diminutas, têm forma de bastonete e não formam esporos. Mal
sonhava eu que essas sereias tornar-se-iam, para o resto de meus dias,
meu encanto e meu tormento.
Nesses trinta anos de trabalho como bacteriologista de plantas acho
que não fiz nada de muito importante mas cheguei a identificar centenas
de fitobactérias e a descrever, publicando, dezenas de doenças
por elas incitadas. Mas o amor à primeira vista poresses femininos
(por isso mesmo, complicados) seres, a saudável obsessão
por eles, que sempre me levou a trabalhar até em feriados e fins
de semana, está acabando. Eu não consigo mais identificá-los.
Faço um Gram, tiro os óculos, ajeito a objetiva de
imersão e as examino, desconsolado. Estou começando a achá-las
mais gordas, mais feias e mais velhas, apesar das medições
que faço ainda baterem, mais ou menos, com o que o Manual de Bergey
preconiza. Espio, com menopáusica postura esses bichos e acho que
meu interesse está cabando. Desisto. Está ficando muito complicado,
já basta ter que dialogar com filhos adolesecentes...
Entra na minha sala um estudante com idade para ser meu filho, brinco
na orelha, tatuagem no braço, uma placa de Petri na mão,
perguntando se é Xanthomonas campestris a colônia (indefinida
cor, parece amarela mas pode não ser amarela, quem sabe é
"ricini") que ele tentou isolar. Vontade de mandá-lo perguntar
ao Júlio, ao Charles, à Rosa, ao Beriam, ao Rui, ao Uesugi,
ao Akiba, ao Rogério, ao Armando, ao Carlos, à Norimar, ao
Malavolta, à Andréa, ao demônio, se for o caso. Vai
num terreiro de macumba perguntar à alma do Erwin Smith - o pai
da Bacteriologia de Plantas. Sei lá se é campestris! Não
sei nem mesmo se é Xanthomononas! Até 1995 eu
sabia. Agora eu não sei mais...
Reclassificaram bactérias fitopatogênicas, mudaram
os nomes - homologia de DNA, principalmente. Não me deixaram instrumentos
para identificar. Como é que eu vou saber se a colônia amarela,
com células em forma de bastonete, Gram-negativa, não-fluorescente,
que não dá HR em fumo e em outras não-hospedeiras,
não esporogênica, causadora de lesões necróticas
em folha de tomate mas não em folhas de alecrim-do-campo ou de cará-de-rama,
que hidrolisa amido e produz H2S, não cresce em meio
de asparagina, cujo pigmento amarelo, se extraído, dá um
espectro perfeito com ombro, pico e ombro? Agora pode ser Xanthomonas
campestris pv. vesicatoria, pode ser só Xanthomonas
vesicatoria, pode ser até outra coisa. Outro dia, descrevi um
patovar de Xanthomonas campestris em girassol e mandei 8 culturas para
o Vauterin, na Bélgica. Ele me respondeu que o perfil (imaginem
bactérias de lado, no canto da nossa cama, como sempre sonhei com
elas) eletroforético não bate com nada conhecido... Ombros
em 420 nm não é qualquer coisa que dá, só Xanthomonas...
Quantos laboratórios de bacteriologia de plantas, no Brasil,
dão conta de identificar bactérias assim? Dois, talvez -
o do Rui (IAPAR) e o da Patrícia (CENARGEN), mesmo assim duvido
que eles façam isso como rotina. Ministro minha disciplina de pós-graduação
e ensino que, na melhor das hipóteses, isola-se, determina-se o
gênero e a espécie com base nos critérios antigos.
Entra-se na nova lista de nomes e detrmina-se o nome como é para
ser agora...
Escrevi uma carta e mandei, por E-Mail, para os autores do artigo
(Young, J. M., Saddler, G. S., Takikawa, Y., De Boer, S. H., Vauterin,
L., Gardan, L., Gvozdyak, R. I. & Stead, D. E. Names of Plant Pathogenic
Bacteria, 1864-1995. Review of Plant Pathology, 75: 721-763, 1995). O japonês
e o russo não respoderam, todos os outros foram muito polidos, falaram
da necessidade de por a casa em ordem, mudanças ainda iam acontecer,
essas coisas. O canadense foi grosseiro - disse-me "who cares for biological
tests?". Deve estar revoltado, como eu estou, porque o Presidente
do Brasil anistiou sequestradores canadenses, gente que devia ser executada
e enterrada em pé, para não ocupar lugar de pessoas decentes.
Mas, acabaram não me dando opção. Fico lembrando da
música de Alcione, "que é que eu faço amanhã..."
Deixaram-me sem instrumentos de trabalho. Não quero ser mais
bacteriologista. Assim não dá jogo. Não vou mais trabalhar
com isso..." Acho que estou muito velho para tanto...
O Carlos, que é viçosense e primo de minha mulher,
apareceu outro dia aqui o meu gabinete. Chorei as máguas com ele,
que assim fica difícil, essas coisas. Com aquela seríssima
cada de filho de Zizinho da Farinheira, ponderou que é preciso ter
paciência, quem sabe fazendo um treinamento fora, bactéria
não é bicho muito complicado, tirinha de DNA a gente separa
no tapa, essas coisas do Carlos. Imaginem ir ao exterior com diária
da CAPES (U$ 50 por dia, eu que paguei U$ 8 por uma cafezinho em Berlin,
da última vez que estive lá). Fechei a cara, disse-lhe que
eu sou do tempo que o Cláudio Lúcio (UnB) usava topete que
nem Elvis Presley, que isso não faz o mínimo sentido, que
eu realmente excrevi para o Young dizendo que quero o desquite... Como
o Carlos foi, no passado, meu aluno, deu vontade de dizer mas eu não
falei, só pensei. Para ele colocar esses bastonetes, um por um,
com e sem PBHB, capsulados ou não, atravessados ou em pé,
onde lhe aprouvesse...
Desquitado delas, coloco uma camisa colorida, se tivesse cabelo (sou calvo) e fosse mulher (Deus me livre) ouriçava o cabelo, raspava a perna, punha um salto sete e meio e ia tomar uma cerveja num lugar badalado. Pois estou fazendo amor com outra pessoa, masculino só no nome, chamado controle biológico, mas isso é outra história. E, sacrilégios dos sacrilégios, os agentes de biocontrole são, por assim dizer, também pequenos e procariotas mas, pelo menos, não precisam ter nome de imediato, só quando funcionam ...