Tenho talvez três anos e brinco no terreiro da fazenda,
numa tarde quente de verão, como essa agora em que tu ameaças
partir, partindo e retalhando, com antecedência, meu coração.
“Guerreiro” late, amarrado a um pé de limão, só vovó
se aproxima dele, ninguém mais. “Serena” uma vaca branca que
dá leite para mim - coitada, morreu-lhe o bezerrinho - pasta
perto do pé de jacarandá. Seu Moisés passa carregando
um balaio cheio de milho. Minha usual falta de coordenação
motora me leva a quase decepar um dedo quando, na verdade, eu queria cortar
um chuchu para fazer um boizinho. Meu angustiado grito de menino é
ouvido e tu vens, me pegas no colo, nervosíssima, lavas o machucado,
aplicas um curativo. Durmo em teu quarto, um cômodo enorme, franciscanamente
decorado com um berço e uma cama, um guarda-roupa simples, alguns
quadros de santos na parede, um dormitório enorme e feudal, quase
do tamanho de uma quadra de tenis. Dezenas de vezes, acendes a lamparina
para olhar o menino na caminha ao lado da tua... Agora, nesse assético
ambiente de hospital, sinto tua mão segurar a minha com a angústia
de quem já não mais fala, escondo os olhos úmidos
para as enfermeiras não perceberem que esse senhor, calvo e de meia
idade, é de novo uma criança carente, sem estrutura psicológica
nem estabilidade emocional para a cerimônia do adeus. Cerimônia
que só nós dois celebramos. Eu, no meu silente sofrimento
de filho e tu, na tua impotência de, agora, inválida...
Menino de roça, brinco o dia inteiro - órfão
e filho único, sempre sozinho. A não ser as meteóricas
vezes que mandavas buscar algum coleguinha de escola passar o dia comigo
- Fernando Lombardi, louro e parecido com um anjo renascentista; Francisco
Chagas, miudo e magrinho, parecendo um camondongo; Paulo Santana, de perne
sorriso nos lábios, gênio bom; Lili, em verdade, Erly, filho
da comadre Zica, que às vezes ajudava vovó na cozinha; Romeu,
naquela época, cabeludo como como perna de militante do P*, José
Gomes, filho de seu Agenor, artesão que morava na rua Dr. Brito
e fazia perfeitos balaios e jequis de taquara; Luis Curió, hoje
meu colega de universidade, na época, apenas um menino de cabelos
claros, neto de Sapita e irmão de Glória, menina de minha
idade, a qual eu achava linda como uma deusa. Mas brinco o dia inteiro,
fazendo coisas de menino de roça - pescar, andar a cavalo, armar
arapuca, apanhar amora, tratar dos porcos com vovô. Vem a noite e,
com o por do sol, um medo atávico do escuro e dos ruidos da mata,
me fazem buscar teu colo, meu amparo e meu refúgio. Tu me dás
banho, me dás de comer - geralmente um café ralo e adoçado
com rapadura, com biscoito de polvilho. Ajudas-me, à luz de lamparina,
com inabitual severidade, em meus deveres da escola. Tenho que decorar
trechos de “Vozes d’Africa”, saber na ponta da língua a tabuada
de multiplicar (de 8, a mais difícil!). Depois, me pões nú,
em cima de uma mesa enorme que tínhamos na sala e catas, um por
um, todos os carrapatos que coletei em minhas andanças pela fazenda,
eventualmente tiras meus bichos-de-pé. Mandas-me, com patriarcal
determinação, ir pedir a bênção
a vovô e a vovó e a todos os tios que ainda estiverem acordados.
Antes de ir dormir, na cama ao lado da tua, rezas comigo, ave-marias e
padre-nossos - eu, morto de sono - em frente à imagem de uma maronita
dama de vestes marrons a quem tu me consagraste, Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro... Apesar de serem “horas mortas”, um eufemismo que usavas para
designar madrugadas, sabe-se lá porque, vou ao posto de enfermagem
e peço um pedaço de algodão, dão-me uma gase
estéril. Umideço-a e vou molhando teus lábios, por
um longo tempo, enquanto contemplo com tristeza, uma tristeza que só
os impotentes ante a diversidade conhecem, teus dedos deformados
pela artrite e tua camisola humilde e com manchas de vômitos e de
remédios...
Levei-te ao banheiro ontem. Mandas que eu saia, num exagerado
ainda que compreensível pudor de solteirona. Espero do lado de fora.
Transporto-te para a impessoal e branca cama do hospital. Recusas deitar-se,
é preciso primeiro esticar o lençol, até que a mínima
dobra desapareça. Riem as enfermeiras - coisas de velha senil. Rio
sem graça, tenho os olhos rasos d’água, entendo até
demais. Foi contigo que aprendi que qualquer coisa a ser feita, precisa
ser bem feita, absolutamente bem feita. Porque sempre fostes uma perfeccionista
e a mim deixastes essa herança, pesada carga de responsabilidade
comigo mesmo. Essa mulher, bonita e tão amada, que vive comigo há
tantos anos, nunca conseguiu entender muito bem porque talheres precisam
ser geometricamente disposto na mesa, porque pijamas precisam ser dobrados
coincidindo costura com costura, porque sandálias precisam estar
absolutamente perpendiculares e em ângulo reto com a maior
dimensão da cama...
Apesar de brilhante e inteligente, primeira aluna a vida inteira,
teu gênio difícil nunca permitiu que tivésses algum
tipo de trabalho que demandasse interação com outras pessoas.
Ou como se diz, um emprego. Sempre vivestes de coisas avulsas, que fazias
por encomenda - pintar quadros, desenhar, bordar, em troca de pequena remuneração
pelas verdadeiras obras de arte que fazias. Na verdade, eram migalhas,
para uma pessoa igual a ti. E sempre foste uma artista, das multivalentes,
das mais perfeitas, por sinal. Fazias bordados de crivo, por exemplo,
que te tomavam meses de trabalho. Ou pintavas quadros a óleo, perfeitos
eles, que te tomavam semanas. Ao preço final de uma coca-cola, se
muito. Era o dinheirinho que tínhas para satisfazer teu pigmeu luxo
de moça solteira - uma lixa de unha, um corte barato de pano para
fazer uma saia, uma remédio para o sobrinho que criavas, uma lata
de sardinha por mês, para comer com pão, quando tinhas cólicas
(menstruais, hoje é que entendo), porque na época eu
via, desesperado, que sentias dor, sem entender muito bem o que estava
acontecendo.
Bastasse eu querer pescar que largavas tudo o que fazias e ias comigo
levando uma peneira e pedacinhos de angu. Pescávamos lambaris que
vovó fritava. Uma vez eu peguei uma traira com um anzol improvisado
com um alfinate que me ensinastes a entortar, da forma certa,
com mestria de moça da roça e tu deste tanta chinelada na
traíra que ela se aquietou! Bastava eu querer amora e tu largares
tudo para ir comigo procurá-las - perto do moinho, complicada operação
que envolvia eu olhando e tu te embrenhando por entre os espinhos, retornando
com duas mãos cheias de frutinhos vermelhos. Guardando as mais bonitas
para mim, contentando-se com as menores, as mais secas, as mais sem sabor...
Hoje de manhã, tomaste um banho no hospital e me chamastes, num
momento de pseudo-lucidez. Para me dizer que meu lugar era a teu lado e
que eu a havia abandonado, que eu passo as noites na rua com mulheres (!)
e que me esqueci de levár-te para casa! Disseste o mesmo ao sisudo
neurologista que acompanha, com impessoal interesse, teu calvário.
Calvário esse que não posso mitigar...
Partiste, deixando-me. Isso me fez sentir terrivelmente só,
apesar de ter mulher e filhos. Não é a mesma coisa, por mais
incomensurável que possa ser o amor deles por mim. Às vezes
a vida nos açoita a face com tanta brutalidade que carinho de esposa
e consolo de filho é pouco. É preciso de colo de mãe.
Onde posso buscar refúgio agora, se precisar? Tu me deixaste. E
eu fiquei menor, muito menor que quando cheguei à tua casa, órfão
e de fraldas. E tu me pegaste no colo e me elegeste para ser o filho que
nunca tiveste... No dia em que partiste, como de costume, fui tomar-te
a bênção no hospital. Foi a última vez que te
vi. Eras um trapo humano, mal me reconheceste, se é que em verdade
ainda sabias quem eu era. Talvez soubésses. Pedi-te um beijo e sentí
que seus lábios responderam com um pequeno e inaudível movimento...
Ainda estavas no hospital. Minha mulher viajou, eu fiquei com os
meninos. Estudava eu com Sílvia, quando a enfermeira telefonou dizendo
que tu havias partido. Aí se processaram todos os protocolos, como
acontece de ser, nessas instâncias. Não quis ver-te.
Nem no hospital nem na tua casa, onde a parte menos importante de ti ficou
exposta à visitação de amigos e de parentes, entre
velas e flores...
Quinze dias depois que me deixaste para sempre, arrumei coragem
para arrumar tuas coisas. Era uma tarde quente de sexta-feira, saí
mais cedo do trabalho, tomei um calmante, fui à tua casa. Abri a
primeira gaveta, tuas coisas pobres e humildes arrumadinhas, a maioria
delas lembranças simples que invariavelmente falavam de mim. Profusas
lágrimas, tantas e tão longas, molharam minha camisa, a ponto
de assustar as enfermeiras que agora ficam, em três turnos, com tua
irmã. Então, descobri que ainda não estava preparado
para violar tua intimidade, por mais próximo que tenhamos sido um
do outro, em cinquenta anos de convivência. Vim para minha casa e
fui para a cama, olhando o teto. A companheira, que em quase trinta
anos de convivência nunca havia me visto deitado a essa hora,
perguntou o que se passava. Depois entendeu e foi embora. Acha ela - eu
também - que certos tipos de dor, simplesmente não
dá para dividir com ninguém. É uma dor tão
grande que preciso sentí-la em solidão, como a sinto agora,
ao terminar essa crônica...
Agora, em tardes de domingo, silente e órfão de ti,
saio de carro sozinho e passo, muitas vezes e lentamente, pelo bairro onde
foi nossa fazenda. Nesse lugar e nessa hora eu costumava, quando pequeno,
buscar abrigo - triste é o entardecer, sempre me deu medo - em teu
regaço. Davas-me a mão, rezavas comigo uma ave-maria, mostravas-me
coisas simples como o capim-gordura em flor, pássaros retornado
ao ninho, a primeira estrela que aparecia, um cogumelo no tronco da aroeira.
Nessa hora bonita do ocaso, tenho a sensação quase física
de vê-la, como se fosse uma onírica miragem que só
esse teu filho percebe. Tu, jovem e independente, fazendeira e prendada,
doce e geniosa, como uma sombra que vaga pela tarde que cai, talvez na
eterna busca de alguma coisa que só tu sabes e conheces e que esse
teu filho não consegue saber nem mesmo em sonho...
De pouca religiosidade formal, fica aqui esse registro, lido e modificado
muitas vezes, ao longo de tua doença, como uma prece. Em feitio
de oração, o filho te diz adeus...