DOENÇAS HEREDITÁRIAS
TRANSMITIDAS POR GENES AUTOSSÔMICOS RECESSIVOS.
KELLY LANA ARAÚJO
Este trabalho
trata da herança autossômica recessiva. São citados exemplos de doenças
hereditárias transmitidas por genes recessivos tais como: albinismo, doença de
Wilson, síndrome de Fanconi, fenilcetonúria, doença
de Tay-sachs,
aquiropodia, fibrose cística,
glaucoma, síndrome de Quelce-salgado e nanismo diastrófico
1. INTRODUÇÃO
Um dos mais fascinantes ramos da biologia é o estudo
da transmissão dos caracteres hereditários. A ciência que se ocupa deste
fenômeno, a Genética, desenvolveu-se durante este século englobando já um
grande número de fatos e teorias interessantes.
Os fatores ou unidades determinantes da herança
chamam-se genes. As características transmissíveis do ser humano estão contidas
nos 46 cromossomos, estruturas encontradas no núcleo das células do organismo.
Esses cromossomos dispõem-se emparelhados dois a dois, em 23 pares, no núcleo
de cada célula. Vinte e dois deles formam os chamados autossomos, idênticos em
ambos os sexos. O par restante é constituído pelos cromossomos sexuais XY no
homem e XX na mulher.
A hereditariedade consiste na transmissão de genes
de ascendentes para descendentes. Além dos caracteres genéticos normais existem
inúmeras doenças e anomalias hereditárias que são transmitidas por gens
específicos dominantes ou recessivos. Este trabalho enfatizará as doenças
hereditárias transmitidas por genes autossômicos recessivos.
2. HERANÇA AUTOSSÔMICA RECESSIVA
Os distúrbios autossômicos
recessivos expressam-se apenas em homozigotos, que, portanto, devem ter herdado
um alelo mutante de cada genitor. Desse modo:

O risco de seus filhos receberem
o alelo recessivo de cada genitor, e serem afetados é de 1/4. A maioria dos
genes dos distúrbios autossômicos recessivos está presente em portadores dos
genes. Eles podem ser transmitidos nas famílias por numerosas gerações sem
jamais aparecer na forma homozigótica. A chance de isto acontecer é aumentada
se os pais forem aparentados. A consanguinidade dos genitores de um paciente
com um distúrbio genético é uma forte evidência em favor da herança autossômica
recessiva daquela afecção.
Critérios da
Herança Autossômica Recessiva
1.
O fenótipo é encontrado tipicamente apenas na
irmandade do probando e o fenótipo salta gerações.
2.
O risco de recorrência para cada irmão do probando é
de 1 em 4.
3.
Os pais do índivíduo afetadoem alguns casos são
consanguíneos.
4.
Ambos os sexos têm a mesma
probabilidade se serem afetados.
3.
EXEMPLO DE DOENÇAS HEREDITÁRIAS TRANSMITIDAS POR GENES AUTOSSÔMICOS RECESSIVOS
I - ALBINISMO
Aspectos
genéticos
O albinismo óculo-cultâneo é um dos erros inatos do metabolismo
determinados por gene autossômico recessivo. Encontra-se consangüinidade entre
os pais dos afetados em 20 a 30% dos casos da literatura.
Não se conhece até o presente nenhuma manifestação
clínica ou laboratorial capaz de caracterizar os heterozigotos quanto ao gene
do albinismo.
Aspectos
clínicos
O albinismo universal ou óculo-cultâneo
caracteriza-se por uma acentuada hipopigmentação da pele, cabelos e olhos. A
pele é branco-leitosa e desenvolve eritemas intensos em resposta à exposição ao
sol. O cabelo é branco, amarelado ou pardo-amarelado. Os olhos não têm
pigmentos na coroide nem na retina, e a íris é diáfana, em geral
azul-acinzentada. Invariavelmente ocorrem nistagmo, fotofobia e diminuição da
acuidade visual (10% ou menos da visão normal). As pupilas são às vezes
vermelhas em crianças, mas nos adultos são sempre negras.
As albinos apresentam grande susceptibilidade ao
cânser de pele.
A doença decorre de um bloqueio incurável da síntese
de melanina, devido à ausência da enzima tirosinase nos melanócitos os quais
estão, entretanto, presentes em número normal.

II - DOENÇA DE WILSON
A
doença de Wilson é claramente determinada por gene autossômico ressecivo como
mostra a alta recorrência em irmandades produzidas por casais normais,
freqüentemente consangüíneos.
Existem
evidências de heterogeneidade na doença de Wilson: as formas juvenil e adulta,
embora condicionadas ambas por genes recessivos, dependem de locos distintos.
A doença de Wilson é uma
afecção rara caracterizada por sinais clínicos extra-piramidais graves devidos
a uma degeneração dos núcleos da base do cérebro, associados a cirrose hepática
e anel corneano de Kayser-Fleischer. Resulta de um destúrbio do metabolismo do
cobre que provoca sua retenção no organismo, seja por maior absorção
intestinal, seja, o que é mais provável, por excreção diminuída nas fezes.
Ocorrem um forma juvenil e outra adulta. Na juvenil a evolução é rápida, com distonia e comprometimento hepático grave. Na forma adulta, por outro lado, a evolução é lenta, predominam as manifestações neurológicas e geralmente a cirrose hepática só pode ser demonstrada mediante prova de laboratório.

III - SÍNDROME DE FANCONI
Agrupam-se sob esta denominação várias modalidades de uma tubulopatia proximal complexa que reúne glicosúria, hiperaminoacidúria e fosfatúria à falta de capacidade de concentrar as urinas a acidose renal. Dentro deste conceito, podemos distinguir 2 formas de manifestação da doença: com depósitos de cistina e sem depósitos de cistina. Os depósitos de cistina caracterizam a cistinose. Na ausência destes, a tubulopatia pode ser idiopática ou secundária. O tipo idiopático apresenta particularidades que permitem separar nitidamente a síndrome infantil (muito rara) da do adulto. Os casos secundários são muito mais freqüentes e correlacionam-se à fase tardia das glomerolupatias, intoxicações medicamentosas como por exemplo tetraciclina vencida etc.
Aspecto clínico
No lactente caracteriza-se por vômitos, diarréia, crises de desidratação, poliúria e sede intensa, associados a retardo pondero-estatural. A lentidão no desenvolvimento é progressiva e por volta dos 2 anos da idade o nanismo já pode ser patente. Instalam-se pouco a pouco alterações esqueléticas com raquitismo vitamino-D-resistente, fotofobia que pode ser muito intensa e é motivada pela deposição ocular de cristais de cistina. Não é raro o achado de hepatosplenomegalia. O paciente pode ir a êxito letal precocemente pelos sucessivos processos infecciosos que se instalam ou pelos distúrbios hidreletrolíticos ou ainda mais tarde, já na idade esco!ar por insuficiência renal crônica.
A
fenilcetonúria caracteriza-se pela alta concentração do aminoácidos
fenilalanina nos fluidos do corpo, devido à falta da enzima fenilalanina
hidroxilase.
Esta doença, também autonômica recessiva tem
freqüência de 1 afetado em cada 15.000 nascimentos.
Cerca de 1% dos pacientes institucionalizados por
retardo mental são fenilcetonúricos. Comumente apresentam irritabilidade,
convulsões e vômitos já nas primeiras semanas de vida; a pele é seca com lesões
inflamatórias e eruptivas ou eczema generalizada; a pigmentação da pele,
cabelos e olhos é mais clara que nos membros normais da irmandade. Outros
achados freqüentes são microcefalia, postura peculiar das mãos com tremores e
reflexos aumentados, anormalidades de eletroencefalograma e convulsões
epiléticas. O retardo mental já se nota aos seis meses de vida e conduz a uma
QI geralmente inferior a 50.

Cerca de 80% dos portadores heterozigotos do
gene da fenilcetonúria podem ser identificados com segurança através de
sobrecarga de fenilalanina que se faz administrando quantidades altas de
L-fenilalanina por via oral e medindo, a intervalos regulares, os níveis
sangüíneos de fenilalanina, para determinar a relação entre as duas
substâncias, que, no heterozigoto, permanecem alta por muitas horas.
Distúrbio neuológico degenerativo, autossômico recessivo, que se desenvolve quando a criança tem 6 meses de idade. Há uma deterioração mental e física intensa desde a lactância, a morte ocorre entre 2 e 3 anos de idade. O defeito básico são mutações no lócus da subunidade a da hexosaminidase A. A deficiência ou ausência da subunidade a da hexosaminidase A leva ao acúmulo do gangliosídeo GM2, principalmente nos neurônios.
VI - AQUIROPODIA
Aquiropodia é uma doença caracterizada pela ausência
das mãos e pés. Os antebraços estão representados por um apêndice ósseo de
quatro centímetros de comprimento, com uma unha na ponta. A perna, por 2/3 da tíbia..
A aquiropodia é uma anomalia hereditária muito grave, condicionada por um gene
autonômico recessivo, extremamente raro.

VII - FIBROSE CÍSTICA
A fibrose cística é um distúrbio generalizado das
glândulas secretoras de muco, particulamente as do pâncreas, do intestino e do
pulmão.O muco fica mais viscoso que o normal e o resultado disso é que secressões ressecadas bloqueiam as glândulas
e seus dutos, de modo que elas atrofiam e são subistituídas por tecido cicatricial.Todavia,
as células secretoras de insulinas do pâncreas não são afetadas, de modo que
não ocorre diabete. Outra característica é que o suor tem concentração mais
alta de cloreto de sódio que o normal.
Esta doença é bastante comum, sendo sua ocorrência
de aproximadamente 1 para 2000 nascimentos e sendo responsável por 1 a 2% das
internações nos hospitais infantis. Mesmo com antibióticos e extratos de
pâncreas, o prognóstico para um afetado não é bom, sendo que muitas das
crianças morrem de pneumonia; algumas, porém, sobrevivem até a idade adulta.
A fibrose cística é controlada por um gene
autossômico recessivo, de modo que os dois sexos são igualmente afetados e, via de regra, nenhum dos pais manifesta o
mal.
VIII - GLAUCOMA
Glaucoma
é um distúrbio em que a pressão do líquido (humor aquoso) que preenche o olho
em sua porção anterior, está anormalmente aumentada, isto é, mais alta do que o
olho pode tolerar por tempo prolongado.

Quando a pressão intra-ocular é maior do que o
normal, o risco de danos irreversíveis ao olho, aumenta consideravelmente.
Causas
Aumento da formação do líquido chamado humor aquoso ou obstrução nos condutos pelos quais normalmente esse líquido sai do olho. Nesse caso, como continua chegando líquido ao olho, a pressão intra-ocular vai aumentando progressivamente.
O aumento da pressão intra-ocular pode ser agudo
(repentino) , causando muita dor e queda acentuada da visão. No entanto, o mais comum do glaucoma é
que ele seja insidioso (Crônico) . Isso
significa que na maior parte das vezes a pessoa não sente que tem o glaucoma,
ou pode ter apenas sintomas "vagos" como necessidade de trocar os
óculos com freqüência, dificuldade de adaptar-se à obscuridade, perda de visão
lateral , visão de halos coloridos ao olhar para uma lâmpada ou visão embaçada.
IX - SÍNDROME DE
QUELCE-SALGADO

Este defeito, também
chamado de nanismo polimicrodátilo, consiste em um encurtamento extremo dos
membros e deformação grave de pés e mãos. Cada dedo reduz-se a um segmento
único ovalado, preso ao membro apenas por partes moles. A doença é claramente
devida a um gene autossômico recessivo. Todos os afetados do Brasil são
provalvelmente aparentados e resultaram de casamentos consangüíneos.
X - NANISMO DIASTRÓFICO

O nanismo diastrófico
é autossômico recessivo. A figura abaixo retrata duas crianças irmãs afetadas.
Quando nasceu a primeira filha do casal, uma geneticista fez o aconselhamento
genético com base no diagnóstico de acondroplasia firmado por pediatras e
ortopedistas, considerando o caso como mutação nova, com risco desprezível de
repetição. Não obstante, dois anos após nascia a segunda filha também afetada.
Ao exame clínico e radiológico verificou-se que se tratava na verdade, de
nanismo diastrófico, cujo risco de recorrência é de 25%, já que tem herança
autossômica recessiva.
Aspecto
clínico
As alterações do aparelho locomotor são as mais
graves e constam de nanismo micromiélico, escoliose e pé torto congênito
equinovaro, de difícil tratamento. Há um retardo no aparecimento dos núcleos de
ocificação, principalmente da cabeça, fêmur e úmero. A luxação ou sub-luxação
do quadril pode ocorrer; a coxa vara é comum
O pavilhão da orelha pode apresentar deformado, por
vezes apresentando calcificação e até mesmo ossificação. A surdez quando
ocorre, é devida a ossificação dos ossículos do ouvido. No globo ocular podem ocorrer
algumas perturbações de ordem funcional, sem entretanto, apresentar grandes
anomalias anatômicas.