DOENÇAS GÊNICAS
(ANEMIA FALCIFORME)
Autor:
Walter Fr. Reis Neto E-mail: eg35934@correio.ufv.gov
Este trabalho trata da doença
gênica Anemia falciforme
1.
Introdução
A Anemia
Falciforme tem origem desconhecida, mas provavelmente desenvolveu-se na África,
milhões de anos atrás. Protege as pessoas contra a malária, doença séria e
comum nos países de clima quente.
No Brasil estima-se que 3 de cada 100 pessoas são portadoras do traço de Anemia
Falciforme e 1 em cada 500 negros brasileiros nasce com uma forma de doença.
Embora haja uma
maior incidência na raça negra, os brancos, particularmente os que são
provenientes do Mediterrâneo (Grécia, Itália, etc.), Oriente médio, Índia,
apresentam a doença.
Diante deste
quadro é possível deduzir-se que a miscigenação racial existente no Brasil está
gerando a continuidade desta anemia, conforme ratifica a literatura científica
brasileira, apontando de forma contundente que anemias hereditárias no país
constituem um grave problema de saúde pública.
2. A Doença
A Anemia
Falciforme é uma doença genética e hereditária, causada por anormalidade da
hemoglobina dos glóbulos vermelhos do sangue, responsáveis pela retirada do
oxigênio dos pulmões, transportando-os para os tecidos. Esses glóbulos
vermelhos perdem a forma discóide, enrijecem-se e deformam-se, tomando o
formato de "foice ". Os glóbulos deformados, alongados, nem sempre
conseguem passar através de pequenos vasos, bloqueando-os e impedindo a
circulação do sangue nas áreas ao redor. Como resultado causa dano ao tecido
circunvizinho e provoca dor. O curso da doença é variável. Há doentes que
apresentam problemas sérios com mais freqüência e outros têm problemas
esporádicos de saúde.
Geralmente é
durante a segunda metade do primeiro ano de vida de uma criança que aparecem os
primeiros sintomas da doença. Exceção é feita nos casos onde o exame de sangue
– para detecção da doença – foi realizado já no nascimento ou no berçário. Até
atingir a idade escolar é comum a doença se manifestar; é raro isso não
ocorrer.
3.
Como um indivíduo se torna portador de anemia falciforme ?
A hemoglobina, pigmento que dá cor vermelha aos
glóbulos vermelhos, é essencial para a saúde de todos os órgãos do corpo
transportando o oxigênio.
A hemoglobina normal é chamada de A e os indivíduos normais são considerados
AA, porque recebem uma parte do pai e outra da mãe.
Na Anemia
Falciforme a hemoglobina produzida é anormal e é chamada de S. Quando a pessoa
recebe de um dos pais a hemoglobina A e de outro a hemoglobina S, ele é chamado
de "traço falcêmico", sendo representado por AS. O portador de traço
falcêmico não é doente, sendo portanto, geralmente assintomático e só é
descoberto quando é realizado um estudo familiar.
Quando uma pessoa
recebe de ambos, pai e mãe, a hemoglobina S, ela nasce com Anemia Falciforme
cuja representação é SS. Então os pais do paciente com Anemia Falciforme
deverão ser portadores do traço ou doentes.
Além de filhos com Anemia Falciforme, pessoas portadores do Traço Falcêmico
poderão também ter filhos normais ou portadores do traço como eles.
4. Qual a diferença entre anemia falciforme e doença falciforme?
A Anemia
Falciforme acontece quando o indivíduo é SS. Ocorre entretanto em alguns indivíduos
a união de um traço S com outro traço doente (C, D, Talassemia), levando ao
aparecimento da hemoglobinopatia SC, SD, S-Talassemia.
Todas as hemoglobinopatias juntas incluindo a Anemia Falciforme (SS), são
chamadas de Doenças Falciformes (SS, SD, SC, S-Talassemisa).
5.
Sintomas da doença
A Doença
Falciforme (englobadas SS, SC, SD, S – Talassemia), pode se manifestar de forma
diferente em cada indivíduo. Uns têm apenas alguns sintomas leves já outros
apresentam um ou mais sinais ou sintomas que vamos descrever:
5.1.
Crise de Dor
É o sintoma mais
freqüente da Doença Falciforme causado pela obstrução de pequenos vasos pelos
glóbulos vermelhos em foice.
A dor pode se localizar nos ossos ou nas articulações, no tórax, no abdômen,
podendo atingir qualquer local do corpo.
Essas crises têm
duração variável e podem ocorrer várias vezes ao ano. Geralmente são associadas
ao tempo frio, infecções, períodos pré-menstrual, problemas emocionais,
gravidez, ou desidratação.
5.2.
Icterícia (cor amarela nos olhos)
É o sinal mais
freqüente da doença. O quadro não é contagioso e não deve ser confundido com
hepatite. Quando o glóbulo vermelho se rompe, aparece um pigmento amarelo no
sangue que se chama bilirrubina. A urina se torna cor de coca-cola e o branco
dos olhos torna-se amarelo.
5.3.
Síndrome Mão-pé
Nas crianças
pequenas as crises de dor podem ocorrer nos pequenos vasos das mãos e dos pés
causando inchaço, dor e vermelhidão no local.
5.4.
Infecções
Podem ocorrer
infecções freqüentes localizadas na garganta, pulmões e ossos. Estas infecções
devem ser vistas pelo médico hematologista tão logo apareçam, podem ser muito
graves e até fatais. Todos os pacientes devem estar com a caderneta de
vacinação atualizada. Ao primeiro sinal de febre procure o Hospital onde você é
atendido, isto certamente fará com que a infecção seja controlada com mais
facilidade. Para prevenir infecções graves, todos os pacientes até 5 anos de
idade devem receber penicilina (Benzetacyl de 21/21d ou penicilina oral 2x dia)
ou Eritromicina se forem alérgicos à penicilina.
5.5
Úlceras de Perna
Úlceras de perna
ocorrem, freqüentemente, próximo aos tornozelos.
Os pacientes devem ser orientados pelo médico hematologista para o tratamento
das úlceras e encaminhados para a sala de curativos.
As úlceras podem
levar anos para cicatrização completa, se não forem bem cuidadas
no início de seu aparecimento. Para prevenir o aparecimento de úlceras, os
pacientes devem andar com meias grossas e sapato.
5.6.
Seqüestro do Sangue no Baço
O
afoiçamento dos glóbulos no baço pode levar ao seqüestro do sangue. Há palidez
e dor no baço e é uma emergência. Procure o hospital onde você é atendido.
6.
Existe cura para a doença falciforme ?
A Doença
Falciforme, embora não tenha cura, já que é hereditária tem controle. Por isso
é necessário fazer o diagnóstico precoce e ir sempre à consultas.
Pessoas com Doença
Falsiforme devem fazer repouso moderado, evitando exercícios muito pesados.
Devem também alimentar-se com legumes, verduras, frutas e carnes, e ingerir
bastante líquidos. É importante agasalhar-se durante o período de frio, usar
roupas leves durante o verão e usar sempre sapatos e meias para evitar
machucados nas pernas. Se apresentar crises leves de dor, sem febre, deve
aumentar a ingestão de líquidos e usar remédios para dor. Se houver febre ou
crises que melhoram, procurar o hospital onde você é atendido.
7.
Tratamento com vacinas
Os pacientes devem
ter a caderneta de vacinações atualizada. Além das vacinas distribuídas às
demais crianças, você deve receber também vacina anti-Hepatite B,
anti-Pneumococo e anti-Hemofílus.
8.
Problemas com a gravidez e o uso de pílula anticoncepcional
A gravidez é
considerada de alto risco. Esta decisão deve ser tomada após o conhecimento
pela paciente falcêmica e pelo futuro pai, dos riscos que envolverão a
gestação. Cada caso deverá ser discutido com o médico. Há mais chance de
aumento da pressão do sangue, problemas nos rins, necrose asséptica do fêmur,
exposição às transfusões com maior freqüência e a transmissão da doença que
merece estudo de hemoglobina do futuro pai.
A paciente pode
usar pílula, desde que acompanhada por médico especialista. Hoje em dia há
anticoncepcionais orais (mini-pílula) e injetável (3 em 3 meses), não havendo
evidências de efeitos colaterais importantes para a paciente falcêmica.
O anticoncepcional
injetável é um excelente método contraceptivo para doente falciforme já que
pode evitar crise de falcização, diminuindo a incidência de doença inflamatória
pélvica e o índice de falha é inferior a 1%.
9.
Padrão de hereditariedade
A forma
comum da Anemia Falciforme (HbSS) acontece quando uma criança herda um gene da
hemoglobina falciforme da mãe e outro do pai. É necessário que cada um dos pais
tenha pelo menos um gene falciforme, o que significa que cada um é portador de
um gene da hemoglobina falciforme e um gene da hemoglobina normal.
Como a condição de
portador do traço falciforme é um estado benigno, muitas pessoas não estão
cientes de que o possuem. Quando duas pessoas portadoras do traço falciforme
resolvem ter filho(s), é importante que saibam que para cada gestação há
possibilidade de um para quatro de que a criança tenha doença falciforme; há
possibilidade de uma em duas de que a criança tenha doença falciforme; há
possibilidade de uma em quatro de que a criança tenha o traço da falciforme, e
a chance de um em quatro de que tenha a hemoglobina normal.
10.Manifestações
clínicas da anemia falciforme
10.1.Episódios
vaso-oclusivos (dolorosos)
A doença se
manifesta por ataques episódicos de dor, com crises dolorosas. A dor geralmente
atinge mais freqüentemente os ossos e as articulações das mãos e dos pés
(especialmente em crianças mais novas), braços e pernas, costas e tórax
(especialmente em crianças maiores), ou no abdome. Quando os pequenos vasos
sangüíneos são obstruídos (vaso-oclusão) pelos glóbulos falcizados as áreas
adjacentes se tornam privadas de oxigênio e o tecido fica lesado (enfarte). A
dor é resultante da lesão ao tecido provocado pela falta de oxigênio.
Fatores desencadeantes: Inclui infecção, fadiga física, febre,
desidratação e exposição ao frio. No entanto, na maioria dos casos, o episódio
doloroso não está associado a qualquer fator desencadeante reconhecível.
Duração: esses episódios duram de 3 a 5
dias; às vezes, podem durar uma semana ou mais. Uma pequena porcentagem de
pacientes tem episódios freqüentes, extremamente dolorosos, exigindo
hospitalizações múltiplas no período de 1 ano, enquanto outros passam longos períodos
sem dor. Às vezes uma criança sofre uma série de episódios em um período curto
de tempo, ficando depois livre deste problema por meses ou até anos. Pelo fato
de ocorrerem de maneira inesperada, e poderem variar em intensidade e duração,
os episódios dolorosos freqüentemente têm um impacto psicológico
negativo nos pacientes e em suas famílias. É importante enfatizar que os
episódios dolorosos são autolimitados e desaparecem espontaneamente. Ainda não
há medicação preventiva para evitar ou parar um episódio doloroso logo no seu
início. A ênfase deve ser dada no manuseio do controle da dor. Não envolve
risco de vida.
10.2.
Infecções e febre
As crianças com
Anemia Falciforme têm maior incidência de infecção bacteriana (particularmente
pneumonia, septicemia, meningite e osteomielite) que as crianças que não têm
essa doença.
10.3.Incapacidade
para concentrar urina
Lesões causadas
por repetidas obstruções de pequenos vasos fazem com que os rins percam sua
capacidade de concentrar urina. Portanto, esses pacientes eliminam sempre
grande quantidades de urina em qualquer situação. O resultado é micção
freqüente, em alguns enurese (urinar na cama) e desidratação quando houver
aumento das atividades em dias quentes. Quando os líquidos forem eliminados de
outras maneiras, como transpiração excessiva, diarréias ou v6omitos, a
desidratação ocorre e pode surgir um episódio doloroso vaso-oclusivo.
10.4.
Acidente Vascular Cerebral (AVC)
Aproximadamente 6%
das crianças com Anemia Falciforme sofrem de acidente vascular cerebral. Existe
a tendência de repetir quando já se teve AVC uma vez. A causa mais freqüente é
o bloqueio dos vasos sangüíneos no cérebro, resultando em lesão.
10.5.
Sequestro esplênico
É a complicação da
Doença Falciforme, que envolve risco de vida imediato, exigindo tratamento de
emergência. Grande quantidade de sangue é retida no baço, que se torna bastante
aumentado. Pode ser comparado à hemorragia com sangue indo para o baço.
Uma criança com
sequestração esplênica torna-se pálida, fraca e prostrada; tem o abdome
distendido e doloroso, transpirando muito. O nível de hemoglobina cai
drasticamente, a criança pode entrar em estado de choque e morrer. Raramente
ocorre com crianças com mais de 5 anos, pois nesta idade o baço geralmente está
destruído pelos freqüentes episódios de falcização. Entretanto, a sequestração
esplênica pode ocorrer em crianças mais velhas, portadoras de outras variantes
da doença falciforme.
10.6.
Atraso na maturação física
Algumas crianças
com Doença Falciforme apresentam um atraso no desenvolvimento físico e sexual.
O atraso no crescimento torna-se aparente na primeira década de vida.
Geralmente, mais tarde recuperam a altura, sendo que os adultos com Doença
Falciforme são com freqüência tão alto quanto os outros. Embora a causa seja
desconhecida, supõe-se que o atraso no crescimento e desenvolvimento possa ser
decorrente de um aumento na demanda calórica, causada pelo
excesso de atividade cardiovascular para compensar a anemia, além da
hiperatividade da medula óssea para repor glóbulos vermelhos que tem vida média
diminuída.
A maturidade
sexual é retardada em ambos os sexos. A fertilidade parece ser normal, tanto
nos homens como nas mulheres.
10.7.
Icterícia
As crianças com
Doença Falciforme freqüentemente têm uma coloração amarela na parte branca dos
olhos. Esta característica é causada pelo aumento dos níveis sangüíneos da
bilirrubina (produto resultante da quebra da hemoglobina). Se a criança tiver
dor abdominal, vômitos ou estiver prostrada, torna-se necessário procurar auxílio
médico. Muitas crianças com Anemia Falciforme têm cálculos biliares.
10.8.
Problemas nos ossos e articulações
O crânio, ossos
longos, vértebras e as grandes articulações sofrem mudanças típicas da doença.
Necrose asséptica (morte do tecido não relacionada à infecção) do osso devido à
lesão causada por enfartes pode ocorrer em qualquer osso, acometendo
parcialmente a cabeça do fêmur. Esta complicação pode se iniciar em crianças
com mais de 5 anos de idade; todavia, é mais comum surgir bem mais tarde.
11.Manuseio
domiciliar da dor:
- Verificar a temperatura
-Aumentar a
ingestão diária de líquidos
-Estimular a
ingestão de alimentos
- Distrair o
paciente
-Usar técnicas de
relaxamento
- Proporcionar
conforto físico
12.Aconselhamento
Genético
Pessoas que
apresentam risco de geara filhos com hemoglobinopatias graves têm o direito de
serem informadas através do aconselhamento genético, a respeito de todas as
implicações dessa doença.
O aconselhamento genético tem como objetivo permitir aos indivíduos a tomada de
decisões consciente e equilibrada a respeito da procriação. Isto envolve também
a discussão, por exemplo, dos recursos terapêuticos disponíveis para a doença,
a possibilidade de diagnóstico precoce e de prevenção de complicações graves, adoção
de filhos, uso de métodos anticoncepcionais.
Como muito bem comenta o professor Bernardo Beiguelman, os programas de
aconselhamento genético devem visar, fundamentalmente, os interesses dos
indivíduos e de suas famílias e não os interesses da sociedade. O termo
"aconselhamento genético" é impróprio, uma vez que o princípio desse
processo é, justamente, não dar conselhos. As crianças devem
ser testadas para a doença tão cedo quanto possível. Medicamentos podem ser
dados para minimizar a ameaça de outras infecções.
13.Bibliografia
consultada:
www.geocities.com/afalciforme
www.diniz.cjb.net