Hoje é dia de feira

 

A feira livre de Viçosa tornou-se ponto de encontro de diversos grupos, é palco de diferentes atores sociais. Nela alguns ganham a vida, outros vão apenas porque os preços dos produtos de lá são mais baratos do que no supermercado. Há os que a vêem como uma forma de lazer e aqueles que vão ao local quase automaticamente, como fazem tradicionalmente desde muito tempo.

 

Hoje é o primeiro dia de mais um fim de semana, sábado, 1° de julho de 2006. Está de madrugada. O silêncio das ruas, a não ser por algum grupo que passa fazendo barulho na volta para casa de alguma festa, soa um pouco assustador. Está tão frio que os ossos chegam a doer. Quando chego a Avenida Santa Rita, às 3 da madrugada, já vejo as barracas de pastel e caldo de cana montadas, e os clientes, a “galera” que termina a farra com um lanchinho e bate- papo com os amigos, já está lá. É como imagino que deve ter acontecido, sei que é assim o começo do funcionamento da feira livre, mas não tive coragem de sair da cama. Que os leitores me perdoem.

A feira livre de Viçosa tornou-se ponto de encontro de diversos grupos, é palco de diferentes atores sociais. Nela alguns ganham a vida, outros vão apenas porque os preços dos produtos lá são mais baratos do que no supermercado. Há os que a vêem como uma forma de lazer e aqueles que vão ao local quase automaticamente, como fazem tradicionalmente desde muito tempo.

Cheguei às 6:50h, a serração ainda estava baixa. Vi algumas pessoas saindo do local com suas compras já feitas. Algumas senhoras passeavam calmamente com seus carrinhos e iam parando nas barracas onde costumam fazer compras há anos. Os vendedores as chamam pelo nome, perguntam pelos seus filhos, maridos, e tecem comentários. Há também alguns jovens comendo pastel, provavelmente estão vindo de alguma festa. Mas tudo ainda está meio parado. Resolvo voltar mais tarde.

São 8:45h. Agora, o movimento é grande. Vejo algumas pessoas irritadas por não ter lugar para passar, estão com presa, e há alguém impedindo a passagem, conversando com um conhecido. Os vendedores já estão animados: “Tem cozido, tem mingau, tem pamonha e broto de feijão!”, grita um. Outro, um senhor mulato, de bigode e cabelos grisalhos, quer vender seu peixe também: “Laranja Bahia, natural, olha aí... Olha a mexerica, serra d’água e caqui... É docinha a laranja, pode chegar freguês”.

É interessante como se encontra de tudo por lá. Depois das primeiras barracas de frutas, verduras e legumes, queijos e pastéis, há um ou outro vendendo os jornais da cidade. E como esquecer das famosas barraquinhas de doce e das vendedoras de toalhas e panos de prato bordados? Mais para frente estão as barracas de bijuterias e roupas, e o som das bancas de CDs é ouvido de longe, lá se encontra de tudo, desde Chico Buarque até o CD da novela teen Rebelde.

E assim a manhã de sábado vai passando... O movimento não pára, pessoas passeiam pela avenida e o movimento de ida e vinda continua. Por volta de 11:40h as coisas se acalmam, mas as barracas de pastéis e caldo de cana ainda estão lotadas. Alguns feirantes já foram embora, outros se preparam para isso.

A xepa é aproveitada por alguns e os vendedores dão muitas mercadorias, ainda em bom estado, para quem precisa e pede. Os catadores de papelão e garrafas de plástico, tão comuns nesses tempos de altos índices de desemprego, trabalham, parando quase que de barraca em barraca. A Avenida Santa Rita vai voltando a normalidade. Depois de todas as barracas serem retiradas, os varredores fazem seu trabalho e o caminhão de lixo da prefeitura passa concluindo a limpeza. Fim de feira.No próximo sábado o ritual se repetirá, como acontece desde 1978 e acontecerá daqui há vários anos.

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Veja também: Especial Fotos da Feira

Por Camila Carvalho