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HEROÍNA: UMA
PONTE ENTRE |
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É uma substância semi-sintética resultante da ação do anidrido acético ou cloreto de acetila sobre a morfina. Seu nome químico é diacetilmorfina, conhecida também por diamorfina ou acetomorfina. Como é sabido, a heroína é obtida do ópio extraído do fruto verde da papoula, subarbusto da família das papaveráceas (Papaver somniferum L.).
É um pó branco, cristalino, amargo e quando impuro, adquire coloração parda. Substância mais potente que a morfina e, no mínimo, cinco vezes mais tóxica, o que provoca rapidamente o vício e a dependência física. Sua maior potência resulta do fato de ela ser lipossolúvel, o que favorece sua elevada concentração no cérebro.
Droga usada em quase todos os países do mundo, nos Estados Unidos, embora em épocas diferentes, seu consumo atingiu proporções alarmantes. Intensamente consumida nos anos 50, quando era vendida nos guetos e nas regiões habitadas por pessoas de baixo poder aquisitivo, após deixar uma legião de viciados e um rastro de destruição e morte, a heroína foi, por motivos vários, substituída por outras drogas.
Esta alternância de uso, que é comum entre as chamadas drogas "pesadas", tem uma explicação lógica. Quando os marginais do narcotráfico percebem que o consumo da droga está aumentando, como também está aumentando o 0número de usuários, passam a vendê-la impurificada, com o sórdido objetivo de aumentar o lucro.
Muito rápido, o viciado percebe que o efeito causado pela droga já não é o mesmo. Para obter as mesmas emoções, ele é forçado a usá-la em doses maiores, num curto espaço de tempo. Isto significa necessidade de mais dinheiro, e, no afã de obtê-lo, ele é levado para os descaminhos da vida, que fatalmente desembocam no roubo, na prostituição e no crime. Acresce o fato de a heroína impurificada ser muito mais perigosa, o que mantém o usuário constantemente no limiar entre a vida e a morte.
Para fugir destes fatores negativos, eles vão buscar novas emoções em outras drogas, o que já se tornou uma rotina entre os viciados. Assim, passam de uma droga para a outra com certa freqüência, voltando, por motivos vários, a usá-la novamente tempos depois. Geralmente, estes motivos estão relacionados com o menor preço, maior índice de pureza e por causa de algumas alterações provocadas na estrutura molecular da droga, que acabam, por diferentes razões, aumentando sua potência. Assim, aconteceu com a morfina, que foi, por uma modificação estrutural, transformada em heroína, e com a anfetamina, transformada em êxtase (3-4-metileno-dioximetaanfetamina).
O fato de uma definida droga ser usada durante algum tempo e depois trocada por outra não tem nenhuma relação com o perigo que ela representa e muito menos com as numerosas mortes que ela tenha causada. Arriscar-se é próprio dos jovens e o perigo da morte é um desafio a ser enfrentado. Essa é uma filosofia macabra, porém, a triste realidade dos nossos dias.
Portanto, mudar de droga é apenas uma questão de modismo. Basta alguém famoso experimentar uma nova droga dizendo que ficou "doidão" para que uma legião de inconseqüentes passe a usá-la. Isto dura alguns anos, até o aparecimento de outra droga para recomeçar todo o processo. Esse hábito de variar de drogas aconteceu no passado, está acontecendo no presente e, por certo, acontecerá no futuro. É uma marcha sem volta, praticada por um exército de loucos.
A heroína, depois de ter sido a droga da moda nos anos 50, como já mencionado, ela voltou nos anos 80, porém usada por um grupo de elite, no ambiente privado dos famosos artistas do mundo da música, do cinema e da televisão. Seu consumo atingiu proporções alarmantes, com numerosas mortes por overdose, principalmente depois da apresentação do filme Pulp Fiction. Morreram, dentre outros, o popular ator River Phoenix, o guitarista Kurt Cobain, a cantora Janes Joplin e, mais recente, o tecladista Jonathan Malvoin, contratado pela banda de rock Smashing Pumpkins para uma turnê mundial.
As autoridades americanas têm observado um fato no mínimo curioso, pois sempre que ocorre uma morte por excesso de heroína, a marca usada pela vitima passa a ser intensamente consumida. No caso específico da morte do tecladista Jonathan Malvoin, as autoridades simplesmente ficaram perplexas, porque as pessoas em vez de ficarem intimidadas com os efeitos letais da heroína por ele usada passaram a procurá-la intensamente por causa de sua reconhecida potência. Conhecida pelo sugestivo nome "Red Rum", que, se escrito ao contrário forma a palavra murder, cujo significado em inglês é assassinato. Jamais um nome comercial foi tão apropriado para uma droga como a heroína, que tem enorme poder de matar.
Após 15 anos de esquecimento, a heroína volta a ser usada nos Estados Unidos em quantidades assustadoras. E o que mais preocupa é o fato de ela não estar sendo comercializada nos guetos e nos locais onde moram pessoas de baixa renda, como aconteceu na década de 50. Agora ela tomou de assalto a famosa Wall Street, o coração financeiro dos Estados Unidos, onde está sendo largamente consumida por uma elite financeira, como executivos, advogados, banqueiros, operadores e até mesmos "Office-boys". Pelo elevado fascínio que exerce sobre os viciados e pelas lesões graves que produz no cérebro, coração, fígado e nos pulmões, é fácil imaginar a preocupação das autoridades americanas com essa nova onda de heroinomania.
A heroína atua diretamente sobre o cérebro, onde interage com as estruturas celulares chamadas receptores. A estrutura do receptor da heroína, que é também o da morfina, foi descoberta pelo cientista Christopher Evans da Universidade da Califórnia. Este receptor ativado facilita a entrada da heroína para o interior da célula, de onde comanda numerosas alterações funcionais em todo o organismo. Já nas primeiras doses provoca dependência psíquica que, muito rapidamente, é transformada em dependência física, caracterizada por euforia, excitação, analgesia, narcose, apatia, letargia, irritabilidade e ansiedade.
Essas mudanças bruscas no estado de espírito alternam forte sensação de bem-estar com elevada depressão. Além disso, ela interfere na capacidade de concentração, causa distúrbios no intelecto, transtornos psíquicos responsáveis por alucinações cinéticas, auditivas e visuais, que podem levar à demência.
São esses paradoxos que fazem da heroína uma droga de enorme contradição. Para alguns é como se fosse um manjar dos deuses e, para outros, uma droga maldita.
A heroína é usada de diferentes maneiras, dependendo do momento e do perfil do grupo que a está consumindo. Assim, ela pode ser cheirada, comida ou injetada. Neste caso pode-se usar tanto a via intramuscular como intravenosa. Claro que o efeito quando aplicada via intravenosa se faz mais rápido e mais intenso. Contudo, essa via não é aconselhável, em razão de uma possível embolia cerebral, quando a droga é impura, mas principalmente pelo inconveniente de uma possível contaminação pelo HIV, se um dos componentes do grupo é soropositivo e a seringa foi compartilhada por todos.
Para muitos pode parecer estranho que uma droga até então privativa da classe pobre e dos artistas viesse a ser usada pela elite americana. Várias causas explicam esse fenômeno: o afrouxamento da vigilância por parte das autoridades policiais; maior disponibilidade do produto no mercado clandestino; menor preço; possibilidade de ser adquirida em locais de fácil acesso e até mesmo entregue a domicílio. Todavia, o mais importante é seu elevado grau de pureza, aproximadamente 80 por cento, quando nos anos 50, era vendida com apenas três e cinco por cento. Isso explica seu grande consumo na Wall Street. Com este elevado grau de pureza, desaparece a necessidade do "pico", pois o efeito obtido por via nasal é raticamente o mesmo. Assim, fica afastada uma possível contaminação pelo HIV.
Consumida no mundo inteiro, a heroína, em razão de sua elevada toxidez é uma preocupação constante. Basta dizer que a dose letal para os não viciados é de 0,05 g. Esta dosagem aumenta um pouco para os dependentes, em virtude da tolerância que ela produz. Infelizmente, isso é um perigo a mais porque a tolerância leva o indivíduo a aumentar constantemente a dose, que acaba provocando a sua morte.
Este problema é tão sério que, segundo algumas autoridades americanas, há 30 anos os Estados Unidos declararam guerra às drogas e, desde então, todas as batalhas têm sido perdidas. Desesperados com os altos índices de mortalidade, as autoridades já não sabem o que fazer. Basta dizer que anualmente são registrados de três a quatro milhões de mortes por overdose de heroína. Somente a partir de 1980 o país já gastou mais de 100 bilhões de dólares e, apesar disso, cocaína, heroína e maconha continuam disponíveis no mercado a um preço cada vez mais baixo. Além dessas três drogas, LSD, "ecstasy" e outros alucinógenos ganham mais adeptos a cada dia. Em relatório enviado ao Presidente Bill Clinton, o Diretor do FBI, Louis Freek, afirma que não há verdadeiramente uma liderança no combate ao consumo das drogas pesadas, e que a população americana está se tornando mais tolerante em relação ao seu uso.
O que preocupa é o fato da heroína já estar sendo consumida no Brasil, inclusive pela classe alta dos Jardins, que nos seus carros importados vão comprar a droga na região de São Miguel Paulista a 100 reais a grama. Embora, há mais ou menos dois meses, a polícia de São Paulo tenha apreendido 10 quilos de heroína, o delegado Marco Antônio N. Santos, por incrível que pareça, diz que o problema ainda não é sério. E numa afirmativa uma tanto ousada, diz que é muito cedo para falar em invasão de heroína. Esta invasão desgraçadamente acontecerá, e por vários motivos: o fascínio que a heroína exerce sobre quem a experimenta; a nossa tendência de imitar o povo americano no que se refere ao uso das drogas; a extensão das nossas fronteiras sem nenhum policiamento, ou policiada com deficiência é um convite ao narcotráfico e, finalmente, polícia e exército na maioria despreparados, ou seja, sem nenhum poder de fogo contra os traficantes.
Esquece o nosso delegado de que a heroína já não é apenas produzida na Tailândia, no Laos, na Birmânia e no Paquistão cuja produção, quase toda, o mercado europeu e americano consume. Agora ela está sendo produzida também na Colômbia, e em grandes quantidades. Basta que uma superprodução sature o mercado tradicional da heroína e ela estará entrando livremente no Brasil.
Se uma grande potência mundial acaba de declarar que, apesar de todos os esforços, não consegue vencer a guerra contra o uso das drogas, o que pensar do Brasil, cujas autoridades governamentais deveriam estar preocupadas em desenvolver um programa sério com o objetivo de minimizar o elevado consumo das drogas, estão ao contrário perdendo precioso tempo discutindo se é válido ou não descriminá-las? E a nossa polícia, que não consegue nem ao menos prender um reles traficante nos morros do Rio e de São Paulo, estaria preparada para impedir a entrada e o consumo da heroína no Brasil?
É uma falta de perspectiva que nos faz vislumbrar um fututo sombrio para os nossos jovens, bem diferente daquele que sempre imaginei: apenas um futuro sem drogas.
Cid Martins Batista
Professor Titular da Universidade Federal de Viçosa, MG
Ex-ProfessorVisitante da Universidade do Arizona, USA
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