O Êxtase, um dos derivados da
anfetamina, apresenta-se como uma pastilha de aspirina,
tem poderes excitantes e afrodisíacos e causa profundas
alterações comportamentais nos viciados. Fabricada, na
Alemanha em 1913, para fins medicinais, poucos anos
depois já era usada de forma ilegal, para causar "barato".
Sob o efeito da anfetamina e de
seus derivados, as pessoas apresentam acentuado aumento
na sua capacidade motora, além de fortes sensações de
euforia, em conseqüência de sua atuação no sistema
nervoso central.
Devido a esses efeitos, passaram a
ser usadas como doping' pelos atletas, para melhor
desempenho nas competições esportivas. Eram, então,
conhecidas por "bolinhas". Verificou-se também
que, usadas como supositórios nos cavalos de corrida,
aumentavam muito suas chances de vitória. Isso fez de
seu uso ilegal prática rotineira em quase todos os
grandes hipódromos do mundo.
Após a morte de vários atletas e
numerosos animais de corrida, as anfetaminas foram
colocadas na categoria das drogas perigosas e, portanto,
sob venda controlada. Mesmo assim, os jovens continuaram
a usá-las, buscando, através de seus efeitos, um mundo
encantado, onde a vida fluísse recheada de prazeres,
emoção e sexo.
Inicialmente usadas por via oral,
passaram depois a ser fumadas, inaladas ou injetadas, na
eterna busca do prazer maior. Esse prazer foi encontrado
por acaso, quando alguém dissolveu uma pastilha de
anfetamina na bebida alcoólica que estava bebendo.
Minutos depois sentiu uma sensação estranha, misto de
euforia e bem-estar físico, muito além da imaginação.
Em pouco tempo, essa prática alastrou-se pelo mundo,
causando muitas mortes.
A anfetamina e seus derivados atuam
no organismo humano, produzindo ação estimulante,
hipertermia, ação cardiovascular e ação anorética.
Constituem valioso medicamento, quando usados sob
orientação médica. Infelizmente, seu uso medicinal
está em segundo plano, uma vez que ilegalmente se
consomem, aproximadamente, noventa por cento de sua
produção.
Seu exagerado consumo passou a
representar para os países do primeiro mundo problema de
conseqüÊncias imprevisíveis. Em realidade, o governo
dos Estados Unidos já está se organizando, para evitar
possível aumento no uso ilegal das anfetaminas e de seu
principal derivado, o Êxtase, previsto para o início do
próximo século. Se, apesar de todas as medidas
preventivas, isso acontecer, a agÊncia americana de
combate as drogas (DEA) está prevendo imensa onda de
violÊncia e mortalidade no país.
O Êxtase, conhecido por MDMA,
sigla de seu nome científico,
3-4-metileno-dioximetaanfetamina, é, na intimidade dos
viciados e dependentes, apelidado de ecstasy, speed, ice,
meta, cristal, E, X, e XTC.
Não importa sua denominação, o
que importa, e isso merece reflexão mais profunda, é
saber por que tantos jovens, mesmo conhecendo sua
devastadora ação no organismo, continuam a usá-lo. Seu
efeito maléfico reflete-se especialmente no fígado, no
coração e no cérebro, o que foi comprovada por
autópsia, feita na Universidade de Sheffield, na
Inglaterra, em sete pessoas, entre 20 e 25 anos, mortas
pela ação do Êxtase. Em todas as amostras analisadas,
foram observadas grandes extensões de tecido necrosado e
sinais de icterícia na pele e nas mucosas. Essa notícia
foi publicada, na Inglaterra, no "Journal of
Clinical Pathology", em janeiro de 1996.
Encontrado praticamente no mundo
inteiro, o Êxtase é a segunda droga mais popular nos
países da União Européia, perdendo apenas para a
maconha. Essa popularidade deve-se ao fato de ser uma
droga mais violenta e mais barata que a cocaína. Seus
efeitos começam a ser sentidos entre 20 e 60 minutos. A
primeira sensação é de euforia, seguida de dilatação
da pupila, elevação da pressão, desidratação,
espasmos musculares e falta de apetite. Em alta dose,
causa ansiedade, pânico, confusão, insônia e
alucinações visuais e auditivas.
O Êxtase tornou-se a droga da moda
quando foi intensamente usada por milhares de jovens,
reunidos na famosa praia de Ibiza, na Espanha, nas noites
de verão de 1987. Durante vários dias, rolou o maior
"barato", provocado pelo ritmo de bandas
improvisadas, que produziam os mais incríveis sons. Os
jovens eram levados ao delírio e, num imenso palco de
madeira, começavam a praticar "strip-tease",
terminando em sexo explícito, sob o aplauso enlouquecido
da multidão. Ao final daquele verão e de todos os que
vieram depois, restou saldo fortemente negativo. Milhões
de pastilhas consumidas, numerosas mortes por overdose,
além de milhares de jovens com lesões graves,
especialmente no cérebro, coração e fígado.
Depois das loucuras praticadas
naquelas noites de verão, o Êxtase passou também a ser
conhecido por "droga do amor", isso porque,
aparentemente, estimula a prática do sexo. Em verdade,
acontece um descontrole psicoemocional, que leva à
prática de taras sexuais, não praticadas em estado
normal. Afirmam ainda, e é absolutamente falso, que o
Êxtase aumenta o desejo sexual, a potência masculina e
o tempo de ereção. As mulheres tornam-se desinibidas,
perdem o pudor e demonstram acentuado desejo para o sexo,
de preferÊncia em grupo e com diferentes parceiros. Em
altas doses, podem sentir o que os viciados chamam de
"flash", um leve orgasmo em todo organismo,
parecido com o causado pela heroína. Em realidade, não
estão fazendo sexo, mas, sob a ação da droga, em
frenética agitação, despidos e abraçados, rolam uns
sobre os outros até a extenuação. Ao contrário do que
afirmam, o Êxtase provoca, com o tempo, nos homens,
impotÊncia sexual e, nas mulheres, frigidez e apatia
sexual. Em ambos, a libido torna-se cada vez mais uma
hipótese remota.
As anfetaminas de modo geral, mas
principalmente o Êxtase, produzem ligeira dependência
psíquica, que rapidamente se transforma em dependência
física. Nessa situação, as pessoas têm a mente
afetada, fortes sinais de compulsão e acentuada
tolerância ao produto. Interrompendo o uso, manifesta-se
toda a sintomatologia da síndrome de abstinência,
caracterizada por intensas dores musculares, fadiga e
surtos depressivos. Nessa situação de sofrimento, o
dependente procura alívio na droga e o faz, obtendo-a a
qualquer preço, mesmo que custe sua própria vida.
Visando maior efeito, o Êxtase
está sendo misturado com morfina e cocaína, ou com
heroína e cocaína, ou, mais recentemente, com heroína
e LSD. Quaisquer dessas misturas representam um coquetel
explosivo, comprovando não ter limite a busca desse
mundo maravilhoso, que só existe na imaginação dos
doentes, dos fracos, dos desinformados, dos inseguros,
dos débeis e dos imbecis.
Associado a outras drogas provoca
frenética agitação nas pessoas, que, excitadas ao
paroxismo, dançam e pulam sem parar, por várias horas.
Essa agitação causa pronta aceleração do metabolismo
e elevação da temperatura do corpo humano até 42 graus
centígrados. Isso leva o indivíduo a beber água sem
parar; mesmo assim, o resultado final é uma forte
desidratação e quase sempre a morte.
Assunto como este, controvertido
por natureza, inclusive nos meios acadêmicos, de tamanha
inquietação para a sociedade, não pode ser discutido
apenas sob hipóteses. São necessários dados e números
que resistam aos mais diferentes argumentos, como o já
citado trabalho de autópsia realizado na Universidade de
Sheffield. Uma segunda experiência, que comprova esta
tese, aconteceu na década de 60, quando o uso exagerado
das anfetaminas passou a ser uma constante na vida dos
japoneses. O governo do país tomou-se medidas imediatas.
Com apenas um decreto-lei, o
governo passou a controlar a produção e a venda desses
produtos, e o consumo da droga voltou a ser apenas para
uso medicinal.
Os sintomas do Êxtase, puro ou
misturado, lembram os sintomas da psicose. Muitos
viciados, por isso, tÊm sido classificados erroneamente
de doentes mentais, esquizofrênicos ou paranóicos. A
gravidade de seus efeitos é de tal magnitude que
extrapola a capacidade de raciocínio e de ação. Para
se ter uma idéia, privado desses sentidos, um pai,
também viciado, cometeu, em Chicago, nos Estados Unidos,
monstruoso crime, decapitando seu filho. Isso, porque,
sob o efeito do Êxtase, fortemente excitado, e durante
várias horas, o filho dançava, pulava e cantava. Após
várias tentativas, sem sucesso, de acalmá-lo, o pai
acabou praticando o crime, por acreditar que ele
estivesse possuído pelo demônio. Isso poderia ser um
quadro pintado com as tintas negras da imaginação, mas
infelizmente não. Em verdade, é a triste realidade dos
tempos modernos.
Cid Martins Batista
Professor Titular da Universidade
Federal de Viçosa, MG
Ex-ProfessorVisitante da
Universidade do Arizona, USA