DA COCAÍNA AO "CRACK",
UM CAMINHO CHEIO DE "PEDRAS"

 
A cocaína é um pó branco e cristalino, de odor levemente aromático. Extraída das folhas do vegetal Erythroxylon coca, planta nativa dos Andes, principalmente Colômbia, Bolívia e Peru, é uma substância de ação euforizante e anestésica. Em grandes doses produz euforia, ansiedade, depressão, idéias paranóicas, delÍrio de perseguição e alucinações visuais e auditivas. A overdose causa convulsões e morte por insuficiência respiratória e colapso cardíaco. A crise paranóica pode levar meses e anos para ocorrer, podendo contudo ocorrer no decurso de uma só dose excessiva, quando o limite de segurança entre a vida e a morte praticamente desaparece. Usada inicialmente para fins medicinais, hoje em dia sua utilização está praticamente restrita ao uso ilegal.
 
Os plantadores de coca, mastigam diariamente suas folhas, sendo por isso apelidados de "coqueiros". Em virtude da ação euforizante da cocaína, eles trabalham muito mais e, com a mucosa da boca e do estômago anestesiadas, comem muito menos. Por isso, não sentem o sabor dos alimentos e têm dificuldades em metabolizá-los. Trabalhando mais e comendo menos o lucro é maior. E com espÍrito de crueldade, alguns patrões estimulam esta prática. Extenuados pelo trabalho e debilitados pela falta de alimento, geralmente morrem antes dos 45 anos. Todavia, isso não tem nenhuma importância, porque são imediatamente substituÍdos por jovens na faixa etária dos 12 a 13 anos. E, sinceramente não sei até quando o mundo assistirá esta ciranda de morte.
 
Para quem pretende experimentar a cocaÍna, é importante informá-lo de que nas primeiras doses ela não lhe causa nenhum dano aparente, assegura-lhe "status" em algumas rodas da sociedade, constitui um "barato", faz de você o centro das atenções nas festas, aumentando-lhe a confiança e euforia. Mas com o passar do tempo e com o uso continuado, ela pode arruinar sua vida, transformá-lo em um solitário e levá-lo à morte.
 
Enquanto eleva seu moral, aumentando-lhe a confiança, vai aos poucos minando sua resistência orgânica, embrutecendo sua mente e destruindo sua personalidade. São estes paradoxos que fazem da cocaÍna um atrativo irresistÍvel para os indivÍduos de todos os nÍveis sociais.
 
Infelizmente, só muito tempo depois da primeira dose poderá você perceber o mal, quando então a cocaÍna já o transformou num dependente sem força e ânimo para abandonar o vÍcio.
 
A Agência Americana de Combate as Drogas (DEA, sigla de "Drugs Enforcement Agency") informa em relatório enviado ao governo dos Estados Unidos que um terço dos americanos entre 18 e 25 anos consome drogas e que 18 milhões usam cocaÍna.
 
Esses números que assustam os estudiosos no assunto somente estarrecem a opinião pública quando acontecem mortes inesperadas de gente famosa como a do popular comediante americano John Beluschi, e da não menos famosa cantora Elis Regina, vitimados por overdose de cocaÍna e heroÍna, ministrada via intravenosa.
 
De todos os negócios ilegais realizados no mundo, a cocaína é um dos mais lucrativos. Só nos Estados Unidos, segundo a DEA, o tráfico movimenta anualmente cerca de 50 bilhões de dólares. Esta quantia é praticamente o dobro do lucro obtido anualmente pelas famosas "sete irmãs gêmeas" da indústria do petróleo: Exxon, Sheel, Mobil, Standar Oil, Gulf, American Oil e Atlantic.
 
Enquanto parcela significativa da humanidade passa fome, os marginais do narcotráfico estão enriquecendo em valores incalculáveis. Este enriquecimento preocupa, porque além de não propiciar nenhum benefício social ainda é responsável pela degradação humana e pela morte de numerosos viciados. Outro aspecto a ser considerado é a utilização deste dinheiro para fins ilegais, pois, além de comprar armas de grande poder de fogo, lanchas e aviões, compram também governos, autoridades e policiais corruptos. Este dinheiro fácil e volumoso é seguramente o maior impecÍlio no combate ao narcotráfico.
 
Mesmo sendo cara, a cocaína continua a ser consumida em todos os círculos sociais. Ela é utilizada, tanto pelas elites da Vieira Souto e do Morumbi como também pelos moradores das favelas, dos morros e das ruas. Todos veêm na cocaÍna um meio de projetá-los na sociedade que frequentam, e até mesmo como estimulante sexual.
 
Os viciados dizem que a droga estimula o intelecto e torna o trabalho mais fácil de ser executado. O trabalho braçal sim, pois a euforia causada pela cocaÍna, contribui para isso, mas o intelectual não. Testes realizados na Universidade de Chicago comprovaram exatamente o contrário, pois verificaram que sob o efeito da cocaína, fica mais difícil combinar e memorizar números e palavras.
 
A cocaína é conhecida por nóia, pó, branquinha, branca de neve, neve, brilho, novidade, poeira de sonho, sonho, coca, free, stone, rock, the big Q, etc. Não importa a maneira de identificá-la, o que importa é o terrÍvel mal que ela provoca quando introduzida no organismo humano, seja inalada, fumada, injetada via intravenosa ou ingerida. Atualmente está sendo usada até mesmo nos órgãos genitais antes do ato sexual.
 
A cocaína atua no cérebro, interferido diretamente na reabsorção dos neurotransmissores dopamina e norepinefrina, liberados nas terminações pós-granglionares do sistema nervoso simpático. Como são importantes na transmissão do impulso nervoso, uma alteração na concentração dos mesmos determina a variação comportamental de euforia ou depressão, que caracteriza o perfil do cocainômano.
 
Outro efeito nocivo é a vasoconstrição que ela produz, responsável pela hipertensão arterial e elevação do batimento cardíaco . Essas informações foram obtidas por meio de experimentos realizados no Departamento de Psiquiatria da Universidade de New York, pelo, Dr. Resnick e colaboradores. Eles injetaram, via intravenosa, 25 mg de cocaÍna em 23 pessoas não viciadas, verificarando, após alguns minutos, que a pressão sangüínea, subiu em média para 18 e para 102, o batimento cardíaco. Estes valores correspondem aproximadamente àqueles obtidos por um atleta submetido ao desgaste fÍsico de uma corrida de 400 metros. É importante notar que os atletas são preparados durante anos para esse esforço. Imaginem, agora, a desgraça que representa para alguns executivos o uso da cocaína, quando sem nenhum preparo fÍsico, desgastam-se na agitação frenÉtica do ato sexual com suas secretárias .
 
O consumo prolongado da cocaÍna por inalação produz necrose do septo nasal, seguida por perfuração do mesmo. Intensamente usada, quer inalada, fumada ou injetada, causa impotência sexual, em virtude da formação de varizes e redução da circulação sangüínea no pênis.
 
Havia, a mais ou menos 10 anos atrás, uma grande preocupação dos especialistas com os efeitos do chamado "free-basing", o estado que fica quem aspira a droga absolutamente pura. Segundo o Prof. Ronald Siegel, da Faculdade de Medicina, da Universidade da Califórnia, o "free-basing" É uma das mais perigosas e tenazes formas de vÍcio existente no mundo. Ele é capaz de provocar modificações comportamentais que causam alucinações, perturbações mentais, estado manÍaco depressivo e uma terrÍvel forma de psicose, que pode levar o viciado a praticar os mais diferentes atos de violência. Há poucos dias, a televisão americana estarreceu a opinião pública, mostrando um indivÍduo completamente descontrolado sob efeito de cocaÍna, e com todas as caracterÍsticas de psicose, metralhando e matando várias pessoas num "shopping center" de Los Angeles.
 
Além de todos estes males, existem ainda aqueles que resultam da ação da cocaína misturada a outras drogas. Quase sempre essa mistura visa aumentar o lucro da venda ilegal da cocaÍna, não importando a extensão dos males causados aos dependentes.
 
A cocaÍna foi inicialmente misturada ao óxido de cálcio, formando um pó menos cristalino, mas responsável por lesões graves no coração, fígado e cÉrebro, como tambÉm numerosas mortes.
 
Mais tarde, em reação com ácido sulfúrico e querosene, foi transformada em pasta básica, responsável pela fibrose pulmonar, sinônimo de sofrimento e dor.
 
Visando torná-la mais barata, para atingir as classes de menor poder aquisitivo, e assim, ampliar as vendas, ela foi transformada em "bazuko". O "bazuko" É um cigarro de cocaína, Éter, metanol, amoníaco, gasolina, permanganato de potássio, cal, farinha e talco. Se cada uma dessas substâncias, com exceção das duas últimas, já representa uma desgraça para o homem, imaginem usadas ao mesmo tempo! Vender este cigarro significa o mais baixo estádio da degradação humana. Fumá-lo É praticamente um suicÍdio. É um pó amarelo, de sabor picante, responsável por profundas alterações psicológicas e fisiológicas, como alucinações visuais e auditivas, perturbações mentais, estado maníaco depressivo intenso, impotência sexual irreversível e, finalmente, a morte que ocorre após forte dependência física, num curto espaço de tempo.
 
Quando imaginávamos que o homem havia atingido com o "bazuko" o seu limite de destruição, eis que surge nos Estados Unidos o famigerado "crack", com enorme fascÍnio sobre a juventude. Dizer que É mais poderoso que o "bazuko" pode ser um erro. Afirmar o contrário pode ser uma leviandade. Assim, vamos considerá-los igualmente devastadores para todos os incautos que tiverem a infelicidade de experimentá-los.
 
Também conhecido por "rock", é a forma mais barata da cocaína e também a mais atraente para o traficante, pois diminui o custo e o arriscado processo do refino. O "crack" É uma combinação de cocaína, ácido sulfúrico ou ácido clorídrico, carbonato ou bicarbonato de sódio e água. Estas substâncias aquecidas produzem grãos ou pequenas pedras de cor parda que são fumadas em cachimbos.
 
É um estimulante aproximadamente seis vezes mais potente que a cocaína. Provoca rápida dependência física, podendo levar à morte, por causa de sua ação fulminante sobre o SNC e o coração. Leva apenas 15 segundos para chegar ao cérebro, onde exerce terrÍvel efeito, que dura em mÉdia 15 minutos.
 
Estes efeitos são: forte aceleração do batimento cardíaco, aumento da pressão arterial, tremor muscular, grande excitação, sensação de aparente bem-estar, aumento da capacidade fÍsica e mental e indiferença à dor e ao cansaço.
 
Os prazeres físicos e psíquicos chegam rápido, como rápida tambÉm se manifesta a sÍndrome de abstinência, que é caracterizada por grande desgaste físico, prostração e depressão profunda. Exatamente para não sentir este desconforto, É que o dependente, tem necessidade de fumar uma nova pedra, e o faz na medida do possível. E esta prática repete-se ao longo do dia, enquanto houver dinheiro. Depois, o roubo, a prostituição e o crime.
 
Hoje, o "crack" é a droga mais consumida em São Paulo, e, por isso, responsável por uma legião de doentes e de numerosas mortes.
 
É importante mencionar que as mulheres que usam esta droga devem ter uma preocupação a mais, pois, se elas a cosumirem durante a gravidez, estarão passando o veneno deste vício para o filho. Se não ocorrer aborto, natimortalidade ou mortalidade neo-natal, os filhos nascerão com forte depressão ou excitação, que podem alternar-se ao longo do dia, raquíticos, peso abaixo da média, cabeça menor que o normal, crescimento retardado, resposta lenta ao estÍmulo e letargia. Geralmente estas crianças não choram, porém, quando o fazem, é difícil fazê-las parar.
 
Fazendo uma segunda leitura sobre o que acabei de escrever e analisando detalhadamente cada alteração provocada pelo uso da cocaína, penso em La Bruyère em seu livro Os Caracters, em que disse mais ou menos o seguinte: "na impossibilidade de evitar que as pessoas usem drogas, é importante censurá-las e criticá-las. Talvez elas viessem a ser piores, se lhes faltassem os censores e os críticos".

Cid Martins Batista
Professor Titular da Universidade Federal de Viçosa, MG
Ex-ProfessorVisitante da Universidade do Arizona, USA

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