O alcoolismo é atualmente um dos
maiores problemas de saúde em vários países, inclusive
no Brasil, onde o consumo per capita do álcool é maior
que o do leite. Embora muitos acreditam que o álcool
seja estimulante do sistema nervoso central (SNC), em
verdade, é uma droga depressora.
Ingerido sob a forma de bebida, ele
penetra no organismo através da boca, passando pelo
esôfago, estômago, intestino, fígado, coração,
circulação sanguínea e cérebro, deixando em sua
trajetória um rastro de destruição. Em sua maior parte
é absorvida pela mucosa do estômago. Independentemente
de quaisquer efeitos intoxicantes que o álcool possa
produzir, ele exerce sobre as paredes do estômago ação
que é, ao mesmo tempo, irritante e inflamatória.
Em razão dos teores alcoólicos
diferentes, as bebidas são classificadas em fortes e
fracas. Todavia, essa classificação só tem valor
didático, porque elas, sem nenhuma exceção, acabam
sendo prejudiciais. Os males causados variam de acordo
com a quantidade de bebida e o tempo de uso.
Bebidas mais fortes como o uísque,
por exemplo, contêm em média 40 por cento de álcool.
Quando ingeridas produzem anomalia gástrica crônica em
pelo menos um em cada três bebedores. As bebidas leves,
com teor alcoólico bem menor, variam entre quatro e dez
por cento. Essas bebidas estimulam o estômago a produzir
uma secreção rica em ácido, contudo pobre em pepsina.
Por causa dessa secreção ácida, as pessoas com as
paredes do estômago já ulceradas deveriam refletir um
pouco mais antes de ingerir qualquer bebida alcoólica.
O álcool é eliminado de duas
maneiras: uma parte pelos rins e pulmões e a outra é
metabolizada nos tecidos. Esse álcool metabolizado
libera calorias para o organismo, o que dá às pessoas a
sensação de estarem alimentadas.
Como todas as reações
metabólicas são catalisadas por enzimas, o metabolismo
do álcool também não foge a essa regra. No caso
específico do álcool, a enzima é denominada álcool
desidrogenase-NAD+ dependente. VÁrias drogas inibem esta
enzima, com reflexo no SNC, causando diminuição na
atividade neuronal, o que contribui para diminuição da
potência sexual masculina; baixa recuperação de
acetilcolina, um neurotransmissor, que provoca
excitação ou depressão; pequeno consumo de ATP
(adenosina-trifosfato), substância que armazena a
energia obtida do metabolismo provocando diminuição da
atividade motora, apatia e prostração; consumo reduzido
de oxigênio, que altera de maneira acentuada, os
processos vitais.
Além do mais, o álcool causa uma
intoxicação que pode ser aguda ou crônica. A primeira
resulta da ingestão de grandes quantidades de álcool
num curto espaço de tempo, e a segunda é conseqüência
do uso periódico ou contínuo de bebidas alcoólicas. Em
ambos os casos ocorrem lesões, principalmente no
fígado, estômago, nos pulmões, no coração e
cérebro, que, dependendo da resistência orgânica das
pessoas, variam de intensidade.
Cada pessoa responde de maneira
diferente às várias concentrações de álcool no
sangue. Quando a concentração atinge o nível de um
pôr cento, cinco a seis doses de uísque bebidas em um
curto intervalo de tempo, ocorre influência depressora
nos centros nervosos que coordenam os movimentos. Com
dois pôr cento, toda a área motora do cérebro é
afetada, e o efeito depressor da droga espalha-se pêlos
centros do mesencéfalo, que comandam as emoções. Com
três por cento, toda a percepção sensorial é afetada,
refletindo-se principalmente nos olhos e ouvidos,
tornando o bêbado, enquanto durar o efeito da bebida,
incapacitado para distinguir imagens e sons. Com cinco
por cento, toda a área de percepção do cérebro é
deprimida e o indivíduo entra em coma. Quando a
concentração atinge sete por cento, a pessoa morre, em
conseqüência da paralisia dos centros nervosos que
comandam a respiração e os batimentos cardíacos.
Independente da morte por overdose,
que pode ocorrer em poucas horas, o álcool também mata
lentamente. O bebedor crônico, quase sempre morre
vitimado por anomalias fisiológicas como: dilatação do
ventrículo esquerdo, principal câmara bombeadora do
sangue no organismo humano; e efeito depressor sobre o
SNC e sobre o centro medular que comanda a
vasodilatação, com perda de calor através da pele. Em
grandes quantidades produz doenças como gastrite,
pancreatite, polineurite, cirrose hepÁtica e câncer.
Potencia, aumentando o efeito de alguns medicamentos,
que, associados ao álcool, podem até causar a morte,
como os barbitúricos gardenal, seconal e tionembutal, os
tranqüilizantes miltown, placidol, equanil e atarax, os
neurolépticos cloropromazina, aminopromazina,
flufenazina e reserpina e as anfetaminas metanfetaminas,
fenfluramina e 3-4-metileno-dioximetanfetamina.
É importante mencionar que o
efeito do álcool na mulher é mais intenso que no homem.
Assim, uma dose de uísque representa para a mulher o
mesmo que duas doses para o homem, porque no organismo
feminino existe menor teor de enzima
alcooldesidrogenase-NAD+ de acordo com pesquisa publicada
na revista "The New England Journal of Medicine".
Ainda mais, o álcool atua sobre o feto, principalmente
nos quatro últimos meses da gravidez, retardando o
desenvolvimento mental, causando irritabilidade,
desenvolvimento motor insastisfatório e deficiência do
crescimento antes do nascimento e durante a infância. É
a chamada Sídrome Alcoólica Fetal (FAS).
Existe uma crença generalizada de
que o álcool estimula o desejo sexual, aumenta o tempo
de ereção e prolonga a libido. Em realidade isto não
passa de um argumento falso, usado pelos viciados, para
motivar os incautos a beber. Para neutralizar tamanho
disparate, o grande escritor inglês Shakespeare,
imaginou o seguinte diálogo:
"Macduff. Quais as três
coisas que a bebida provoca predominantemente?
John. Ora meu senhor! Vermelhidão
nas fuças, sono e urina.
Macduff. E quando à luxúria, a
bebida provoca ou não provoca?
John. Doutor, o senhor sabe melhor
do que eu. A bebida provoca e não provoca a luxúria,
pois se desperta o desejo, impossibilita a realização".
O álcool não apenas impossibilita
a realização do sexo, como também causa impotência
sexual masculina. Segundo opinião conceituada de grandes
andrologistas do mundo inteiro, as causas mais
freqüentes de impotência sexual estão relacionadas a
problemas vasculares, neurológicos e à diminuição
hormonal. Afirmam ainda que a impotência causada por
distúrbios neurológicos pode ser resultante da
ingestão excessiva de álcool.
O consumo de álcool atinge
proporções alarmantes, na medida em que aumenta o seu
consumo e diminui a faixa etária dos bebedores. Esta
realidade nos inquieta quando verificamos que os jovens
estão iniciando nas bebidas aos nove e dez anos. Com a
convivência ou não dos pais, com certeza omissão, os
jovens permanecem mais tempo na rua, bebendo cada vez
mais.
Sem nenhuma medida proibitiva por
parte das autoridades constituídas, na sua quase
totalidade, irresponsáveis, venais e corruptos, os
barzinhos da moda e os botecos populares estão cada vez
mais freqüentados e fechando as portas cada vez mais
tarde.
A noite passou a ser para os jovens
um momento de fuga, quando tentam na bebida esquecer
todas mazelas que a vida moderna lhes impõem.
Entretanto, o mal não está apenas nas bebidas, mas,
principalmente, na prática de usá-las misturadas com
diferentes drogas, quando ambos se potenciam, aumentando
seus efeitos. E o resultado deste hábito são as
numerosas mortes que a mídia informa diariamente.
Existe ainda, e poucos menciona,
esse fato, um grande mal relacionado com o alcoolismo.
Todavia, esse mal não corresponde à ação direta da
bebida sobre o organismo, mas tão-somente à
substituição gradativa do alimento pelo álcool. Este
passa a fornecer calorias necessárias ao trabalho
celular. Contudo, o homem não vive apenas de calorias.
Ele necessita de algo mais, e isso ele não consegue de
sua bebida. De sua garrafa, ele não consegue os
aminoácidos necessários à renovação protéica
diária, como tambÉm não consegue os hormônios, os
sais minerais e as vitaminas necessários ao
funcionamento normal do organismo. Em relação às
vitaminas, além de não fornecê-las, o álcool ainda
reduz a disponibilidade principalmente das vitaminas, A,
B2, B6, B12 e C, é a falta dessas substâncias na sua
dieta, mais do que o efeito do álcool nos tecidos, é a
grande responsável pelas doenças relacionadas ao
alcoolismo.
Todavia, é importante distinguir o
bebedor social do bebedor dependente. O social bebe
moderadamente, e, neste caso, os males provocados pelo
álcool são praticamente desprezíveis. Quanto ao
usuário dependente, aquele que bebe compulsivamente,
está sujeito a todas as doenças causadas pelo
alcoolismo. O álcool tem uma meia-vida (t 1/2) no
organismo humano de quatro a seis horas. Meia-vida
significa o tempo necessário para o organismo eliminar a
metade do álcool ingerido. Para eliminar todo ele, é
necessário um período de tempo correspondente a dez
vezes a meia-vida. Se um indivíduo beber num sábado à
noite, e não mais tomar nenhuma bebida, na segunda feira
todo o álcool já foi eliminado. Isso não acontece com
o bebedor crônico, aquele que bebe diariamente, pois ele
não dá ao organismo o tempo necessário para eliminar
todo o álcool ingerido. Assim, acontece o efeito
acumulativo, e a concentração do álcool no sangue
está sempre aumentando. Embora lentamente, após alguns
anos, a concentração no sangue permanece em patamares
perigosos, o que pode significar coma e morte.
À medida que o bebedor social vai
se transformando em bebedor crônico, a dependência psí
quica tambÉm vai se transformando em dependência
física. Embora ambas afetam a mente, só a dependência
física produz tolerância, compulsão e síndrome de
abstinência. Ainda que alguns pesquisadores relutem em
aceitar esta dependência, estudos modernos assinalam
esta realidade. Sempre que um alcoólatra É internado
para tratamento e recuperação, em plena abstinência do
álcool, manifesta-se a síndrome de abstinência, que,
segundo observação das pesquisadoras do Programa de
Reintegração e Educação do Alcoolista (PREA), da
Universidade Federal de Viçosa-MG, manifesta-se de duas
maneiras. Uma considerada benéfica, que é a
recuperação do apetite e retomada da vida sexual, e a
outra, maléfica, caracterizada por alterações
comportamentais profundas, tremores, irritabilidade,
sentimento de perseguição, sono agitado,pesadelos e
insônia, fala confusa e desconexa, perda passageira da
noção temporal, ilusões e alucinações. Finalmente, o
"Delirium Tremens", que pode ocorrer logo após
a interrupão da bebida, como também horas, semanas e
meses depois.
Os bebedores são classificados em
duas categorias: o bebedor social e o bebedor dependente.
O segundo tipo é aquele indivíduo que já não tem o
poder de decidir entre parar de beber ou continuar.
Por que as pessoas bebem? Todas
pensam que sabem, mas, quando lhes é perguntado, se
sentem confusas. Geralmente associam o ato de beber à
personalidade do alcoólatra, dizendo que é modismo, o
que na verdade não passa de caráter fraco, falta de
autocontrole, medo de enfrentar a realidade, reflexo de
uma infância miserável, casamento infeliz etc. Na
realidade, a personalidade de um alcoólatra é o
resultado do alcoolismo, não a causa, como afirma o Dr.
Vaillant, na Revista Harvard University Press.
Não devemos nos preocupar com
aqueles que bebem socialmente, mas não podemos deixar de
criticar e condenar os que bebem de maneira excessiva,
como fez São João Crisóstomo, em sua homilia:
"Ouço muitos clamores quando
acontecem excessos deploráveis. Não devia haver vinho!
é uma loucura! é abominável! é o vinho que causa
estes abusos? Não. é a intemperança de quantos extraem
dele um prazer maléfico... Se dizeis, não devia haver
vinho por causa dos bêbados, então devíeis dizer em
escala progressiva. Não devia haver noite por causa dos
ladrões. Não devia haver luz por causa dos delatores.
Não devia haver mulheres por causa do adultério".
Portanto, o que deve ser condenado
É o uso abusivo das bebidas alcoólicas, não o ato de
bebê-las moderadamente. Embora o grande ator
cinematográfico Humphrey Bogart dissesse que a
humanidade estava sempre atrasada em uma dose, eu afirmo
que ela sempre esteve adiantada em várias doses.
Cid Martins Batista
Professor Titular da Universidade
Federal de Viçosa, MG
Ex-ProfessorVisitante da
Universidade do Arizona, USA